terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Análise Tropa de Elite 2*

No ano de 2010, a Revista Veja fez uma reportagem sobre o filme Tropa de Elite 2. Na época eu escrevi esta análise da reportagem. A análise foi publicada em um site mantido por uma amiga, pois eu ainda não mantinha este blog.
Agora, pouco mais de oito anos depois, começa a estourar (de novo) a relação das milícias do Rio de Janeiro com o Estado (incluindo a família Bolsonaro), junto com a vitória, política, do modo de pensar do Capitão Nascimento do Tropa de Elite I. Desta forma, acho pertinente republicar o texto, tanto para uma reflexão sobre acertos e erros como, também, para provocar, neste momento uma reflexão sobre questões que já deveriam ter sido discutidas à época, mas foram negligenciadas. Mantenho ele com o conteúdo original!
Segue:
"Análise Tropa de Elite 2

Na revista Veja (edição 2190 - ano43 - número 45 de 10 de novembro de 2010) a reportagem de capa é sobre a mais nova produção cinematográfica brasileira: Tropa de Elite 2.
A reportagem de nome "O PRIMEIRO SUPER-HERÓI BRASILEIRO", trabalha na construção do Capitão Nascimento (personagem principal do filme) enquanto sendo a figura de um herói.
Isso a despeito de o mesmo aceitar a tortura de prisioneiros como diz o próprio José Padilha (Diretor do Filme) "Ele tortura inocentes e mata pessoas que deveria prender. Não tem as virtudes morais que o senso comum exige de um Herói". Mas, para rebater o diretor a revista diz: "Mas um herói - em particular, um herói de ficção - não precisa se apresentar como um ser humano exemplar, de moral irretocável.(P.127)"
Ou seja, a revista transforma Nascimento em um Herói, e diz que o único problema do filme é que ele "desaponta: na invocação de uma ideia de "sistema", cuja engrenagem perversa seria tão carregada pela inércia da corrupção e da ineficiência que giraria sozinha, a despeito de tudo e de todos. Mas não há "sistema" (segundo a revista): o que há é a soma das ações dos indivíduos (P.127)", assim mesmo elogiando o personagem principal, a revista faz uma crítica ao filme, reproduzindo uma noção individualista do capitalismo, onde se coloca que o individuo é dono completo de si mesmo.

Como se ele não fizesse parte de um tempo histórico e de uma realidade social. A frase:"... a soma das ações dos indivíduos,..." reproduz uma visão de mundo que para a revista já é de praxe (é só observar o histórico de posições da revista em suas reportagens), onde o problema das mazelas do planeta são única e exclusivamente de cunho individual.
E ao você colocar a culpa sobre todos, você dissolve a culpa como açúcar na água, e assim ela passa a ser de ninguém, naturalizando assim o que se vê por aí.
Se a pessoa não tem emprego, o problema é por que ela não procura ou não se aperfeiçoa, não existe (para a revista) a possibilidade de sequer cogitar a avaliação de que o sistema econômico precisa do desemprego na figura de um exercito industrial de reserva. No mesmo sentido se existe corrupção é por que o indivíduo é corrupto, e não porque existe um sistema que naturaliza a corrupção pondo o lucro (venha ele da maneira que vier) sempre acima do bem estar coletivo e da vida.
Percebe-se também na reportagem (uma reportagem de capa com 8 páginas) a ausência completa do nome do personagem Marcelo Fraga (Deputado Estadual que junto com Capitão Nascimento combate as milícias) apesar do mesmo atuar em conjunto com o Capitão Nascimento no filme. E se há ausência do personagem o que se dirá da pessoa que inspirou o personagem, o deputado do PSOL Marcelo Freixo?
Ao não citar o Deputado Fraga a revista deixa de trabalhar as conexões existentes entre o Estado e as milícias, a única menção que a reportagem faz a corrupção política é quando menciona a surra que o personagem Capitão Nascimento dá em um político corrupto, pautando assim o problema da milícia e da corrupção como sendo um problema de ações individuais de políticos e/ou policiais corruptos.
Assim, apesar do filme fazê-lo, a reportagem não trabalha as conexões das milícias com grupos políticos, e o fato de que estas estão inseridas dentro do Estado seja através de representantes eleitos, ou membros dos altos escalões da administração civil e militar, e a maneira como estas nasceram patrocinadas pelo próprio Estado e incentivadas pelo sistema.
Mas, pelo cunho da reportagem esta ausência já era esperada, pois se ela fosse trabalhar esta questão, ela estaria caindo em contradição ao invocar os problemas das milícias como sendo única e exclusivamente um problema moral de policiais corruptos, e teria de admitir a existência do sistema (capitalista), assim como teria de ao menos mencionar o nome de um Deputado de um partido de esquerda que vêm combatendo este sistema: O Deputado Marcelo Freixo do Rio de Janeiro.
Em resumo, a reportagem da Veja desvirtua completamente o sentido e a lição que o filme Tropa de Elite 2 quer passar para o público: A lição de que existe um sistema por trás das ações individuais, que pauta muitas vezes estas ações na intenção de uma continuidade. A lição de que o Estado, não passa muitas vezes, de um braço organizado para a manutenção de uma economia que faz da "segurança pública" uma segurança de morte.
E que o problema das milicias e da corrupção, seja na polícia ou em qualquer outro setor do governo, vai muito além da questão moral do individuo, mas que a corrupção é sangue que nutre o Sistema Econômico Capitalista, ele não pode viver sem ela.

Afinal, corrupto também consome, e o que vale nesse sistema é o consumo e não a moral ou a vida!
Só haverá fim da corrupção (em nível geral) quando a vida estiver acima das questões econômicas, quando desastres que matam pessoas não serem mais (por exemplo) contabilizados em prejuízos de dólares!
Fica a lição do Filme e não da revista!
E fica o orgulho de ter no país um partido (PSOL) e um Deputado e militante como Marcelo Freixo, se a revista não lhe deu o destaque e o agradecimento merecido, eu o faço aqui!
E de forma individual, fica o orgulho de fazer parte da base deste partido e de certa forma ter Marcelo Freixo como camarada!

Assinado:
Luciano Egidio Palagano
Marechal Cândido Rondon  - PR
Presidente do Partido Socialismo e Liberdade de Marechal Cândido Rondon
Militante da Pastoral Operária, Sindicato dos Trabalhadores da Educação do Estado do Paraná (APP - Sindicato)
Movimento Estudantil da UNIOESTE
Acadêmico de Direito e História  - UNIOESTE Campus de Marechal Cândido Rondon - PR."

*Publicado originalmente em:
http://os4elementos.no.comunidades.net/analise-tropa-de-elite-2

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Encerra-se 2018!


Hoje parei para pensar sobre o que escrever sobre o final de ano para meus amigos, conhecidos e as pessoas que me seguem nas redes sociais. Fiquei na dúvida entre a escrita de uma mensagem utilizando belas palavras, afirmando que o ano que entra será melhor ou algo mais “pé no chão”, como se costuma dizer. Optei pela segunda, pois não me sentiria bem escrevendo sobre algo que eu não acredito.

Encerra-se 2018, o ano que parecia não acabar, tão tenso e intenso foi este ano que trouxe a impressão de trazer três anos embutidos em um só. Mas, encerrou-se, tenham sido três, tenha sido um, encerrou-se. E, com ele, aparentemente, encerra-se um ciclo.

Todos esperam que 2019 seja melhor que 2018, assim como esperávamos que 2018 fosse melhor que 2017. O problema é esse: esperamos, apenas esperamos. E na espera da esperança, por vezes acabamos por nos iludir. Palavras ditas ao vento, afirmações que chocam e, ao mesmo tempo, refletem um sentimento de indignação que todos sentem, menos àquele que faz uso das palavras. Este não. Ele não é um indignado, é um calculista. Calcula o que dizer e o diz, na espera de que o dito reverbere no sentimento do povo, “pescando”, assim, apoio popular para seus projetos individuais.

Isso foi o que vimos ocorrer este ano. Em 2019, muitos que hoje sorriem, irão lamentar (infelizmente), pois os salvadores irão começar a mostrar à que vieram, e eles não vieram para fazer aquilo que o povo espera deles. Infelizmente, muitos irão abanar a cabeça discordando destas palavras e só lembrarão delas no momento em que os fatos começarem a se concretizar.

Em 2019, os que lutaram em 2018 terão que lutar ainda mais, com força redobrada e ânimo reforçado. E no processo da luta, terão que saber abrir os braços para àqueles que, até então, apoiavam o outro lado por esperança de que este fosse o melhor. Nesta hora, apontar o dedo e afirmar “isso é culpa sua” pode trazer a sensação de desabafo, mas não contribuirá em nada com a luta que temos que encampar.

Em 2019, a solidariedade se tornará mais necessária ainda. Solidariedade para entender o outro e para apoiar o outro. Temos muito chão pela frente e, em vários momentos, alguns irão cansar e precisar do ombro alheio para continuar a luta. E, cada um, precisará saber oferecer o ombro, lembrando que, talvez amanhã, seja ele a precisar. Quem sabe a experiência nos ensine, desta forma, a sermos mais solidários.

Direitos trabalhistas, previdenciários, direitos sociais em geral, educação pública, saúde pública, liberdade de ensino, ciência, meio ambiente e, até mesmo, segurança, estão na fila para serem atacados, mais ainda do que em 2018. É nosso dever lutar para que isso não ocorra ou, se ocorrer, lutar em sua defesa. Pois são nossos direitos e, portanto, somente nós podemos lutar por eles.

Falando em lutar por direitos, para quem é ativista (ambiental, por direitos sociais, direitos humanos...) temos pela frente um ano desafiador. Pois nosso ativismo se tornará ainda mais necessário, exatamente no momento em que à mesa da presidência da República estará sentado alguém que afirmou, com todas as letras, que “é preciso acabar com todo este ativismo”.

Enfim, 2019 (e provavelmente os demais) será e serão anos desafiadores. Anos de luta, de fortalecimento e construção coletiva. Como falei no início, gostaria de poder escrever algo singelo e de elevação do espírito, mas a realidade não me permite. Não será fácil, mas é possível vencer e superar, e vamos fazê-lo! Enfim, para encerrar, que a Esperança não morra, pois é ela que nos move. Ela, a pequena Esperança, última a sair da caixa de Pandora. Que o desejo da Utopia não desapareça, pois ele nos impele ao movimento e à luta por uma sociedade melhor, se não para nós, pelo menos para àqueles que vierem depois de nós. Nas belas palavras de Galeano:

“A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”.

Então, não deixemos de caminhar, mesmo que o caminho tenha pedras e espinhos, mas, sempre, encontraremos uma ou duas flores pelo caminho. E elas já valem a caminhada!

São meus votos para 2019!

De luta e ânimo, e, também, felicidade, mas uma felicidade consciente e não embriagada. Uma felicidade que não impeça de se ver a realidade como ela é, para que possamos muda-la para melhor e construir um mundo como o descrito na Utopia de Eduardo Galeano:





Ass.

Luciano Egidio Palagano

Estudante, trabalhador, ativista e militante!