sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Do dever da Esperança

    Já há algum tempo que eu vinha querendo reativar este blog, mas, por várias razões, não havia dado certo. Hoje decidi sentar e escrever, e então, pensando no que escrever, ao refletir sobre a atual situação nacional e mundial, pensei: precisamos de Esperança. Precisamos da Utopia!

Apesar do sofrimento, um olhar de esperança.
Criança Guarani Tekoha Y'hovi - Guaíra - PR
Luciano Palagano - Agosto de 2015
   Eu poderia dissertar aqui, nesse momento, sobre Trump e a conjuntura mundial, ou sobre a ascensão do nazi-fascismo, ou, quem sabe, sobre o golpe e suas consequências. Mas, penso que, no momento, precisamos estimular a esperança, a esperança de que é possível superar tudo isso e muito mais. De que a luta não acabou, ela apenas se tornou mais necessária ainda.
   Também é momento de rever, de reflexão, de se analisar os erros cometidos no passado recente, pois muitos destes erros é que nos levaram a atual conjuntura. Penso eu que, a maioria desses erros, teve como base a crença de que era possível conciliar as classes, de que era possível “dormir com o inimigo” sem que houvesse consequências futuras. Hoje vemos, novamente, o quanto esse pensamento se mostra errôneo e o quanto ele nos aproxima mais ainda do abismo.
    Mas, do erro pode nascer o entendimento. Da reflexão sobre o erro pode nascer a compreensão, e desta uma nova ação. Mas, antes de tudo, antes de buscar compreender, antes de buscar agir, antes de qualquer coisa, é preciso primeiro ter esperança. Esperança de que nossa luta não é vã, de que tudo o que fazemos (que parece não ter efeito imediato) se soma as ações de outros milhões, e juntas, essas ações, aos poucos vão construindo o caminho para um mundo igualitário.
   
Trabalho coletivo na construção de uma escola.
Tekoha Y'hovi, Guaíra - PR
Luciano Palagano - Agosto de 2014
 Encerro este texto aqui, este texto que tem a pretensão de ser o primeiro da retomada deste blog e servir como estimulo a ação dos militantes das mais diversas causas que o lerem. Futuramente, aqui no blog, irei voltar a dissertar sobre temas variados, sempre respeitando a linha editorial do mesmo que esta representada no nome “Razão à Conta-Gotas”.
   Por hora, termino com aquela passagem famosa do Galeano (citando Fernando Birri) sobre a Utopia: “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

     E finalizando: acredite na sua militância, acredite na sua luta, acredite: Lutar vale a pena! Se você luta, você precisa acreditar na vitória de sua luta.

quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

Cristianismo, Fundamentalismo e Virada de Ano

 A contagem do tempo, desde os primórdios da humanidade sempre esteve ligada a mistica religiosa, os calendários sempre foram baseados em determinadas visões cosmológicas de mundo que se embasavam nos credos religiosos daqueles mesmos povos. Não é diferente para o Ocidente Moderno, todo final do dia 31/12 comemoramos a entrada do dia 01/01, baseados no calendário cristão, sejamos cristãos ou não, seguimos todos (no ocidente) esta mesma tradição.
Talvez, pudéssemos ser mais racionais e mudar a forma de contar o tempo, por exemplo: poderíamos determinar uma escala de ciclos de um relógio atômico, e assim que a contagem deste relógio atômico alcançasse esta escala e reiniciasse a contagem novamente, consideraríamos como tendo passado um ano.
Relógio Atômico

Imagem disponível em: 
http://www.tecmundo.com.br/ciencia/49467-relogio-atomico-do-colorado-pode-ser-o-mais-preciso-do-mundo.htm
Seria muito mais racional, metódico, científico e até mesmo exato. Mas, nada romântico, não é mesmo? Quando abríssemos uma champanhe e abraçássemos a pessoa ao lado desejando “Feliz Ano Novo”, estaríamos pautando isso no reinicio do ciclo de uma máquina. Creio que nem mesmo eu, por mais cético que eu seja, gostaria disso.
Portanto, vamos manter nossa contagem de tempo cultural, as diversas contagens de tempo culturais, por mais imprecisas que elas sejam. Mas, o tema deste texto não é este. Esta pequena introdução é só para vocês refletirem um pouco sobre o tempo e sua contagem, ao longo da História. Eu quero falar aqui, aproveitando a virada de ano do calendário cristão ocidental, sobre Cristianismo e fundamentalismo, sobre a contradição entre o que enxergamos e vemos sendo propalado hoje (final de 2015 para o inicio de 2016), como sendo cristianismo e aquilo que era o cristianismo em sua essência. O chamado cristianismo primitivo, que de primitivo só tem o nome, uma vez que era muito mais humano do que este que hora vivenciamos.
O Cristianismo, assim como todas as religiões que derivam de uma anterior, nasce da contradição, ele nasce questionador de uma ordem instituída que se mostra corrupta, opressora e decadente. Não é por mera força de expressão que o Cristo chama os fariseus de “Sepulcros Caiados”, que ele, com um chicote, em um acesso de fúria, expulsa os “vendilhões do templo”, afirmando: _ “Não façam, da casa de meu Pai uma casa de comércio!” 
Jesus Expulsa os Vendilhões do Templo
Obra de Rembrandt
O Cristianismo, em sua gênese, se olhado, analisado e observado, a partir do seu momento histórico, nasce libertário e revolucionário. O Cristo andava com leprosos, com prostitutas, com os setores mais oprimidos daquela sociedade, ensinava que com a partilha todos podiam ter, e questionava como um todo, os “doutores da lei”, os sacerdotes, os poderosos daquela sociedade.
O Cristianismo, em seu âmago é questionamento de uma ordem de opressão, é perdão e também amor universal. O Cristo renegou o próprio núcleo familiar ao dizer que, sua família, seus irmãos e irmãs, eram todos aqueles que lá estavam com ele.
O Cristianismo nega o Deus tribal, o Deus das batalhas, o Deus dos exércitos, o Cristo consegue fazer com que o próprio Deus seja transcendido, transmutado do Deus tribal, do Deus dos Exércitos para o Deus universal, o Deus dos oprimidos, o Deus do Amor e da tolerância.
O Cristianismo, por isso tudo, na sua própria essência, nega o fundamentalismo, não é a toa que os fundamentalistas se baseiam mais no antigo testamento do que no novo. O fundamentalismo não é Cristianismo, mesmo que tente se revestir como tal. O fundamentalista não é Cristão, mesmo que use o nome do Cristo em vão. Na parábola, o bom foi o Samaritano, e não o Ortodoxo!
Os pastores, padres, bispos, cardeais, toda esta corja de “sacerdotes” que defendem a opressão, que se enfileiram ao lado dos opressores, são os “fariseus”, os “saduceus” e “doutores da lei” da modernidade.
Os novos antigos crucificados!
Manipulam os oprimidos, de acordo com os seus próprios interesses, não agem nunca na intenção de libertá-los da opressão, mas sim, sempre na tentativa de afundá-los cada vez mais na ilusão. Eles são os herdeiros dos “vendilhões do templo”, dos “fariseus” e dos “saduceus”, “sepulcros caiados”!
Eles crucificariam o Cristo, como aqueles o fizeram, e o Cristo se apartaria deles, como ele o fez com aqueles. Quem os seguem, não seguem o Cristo, seguem “falsos profetas”!
A maneira como agem, o que fazem, aquilo que defendem, é a negação do Cristianismo em sua essência, e do próprio Cristo.
O Cristo, o verdadeiro lar dele, é o coração de cada oprimido, a mulher que sofre com o machismo, o negro, o sem terra, o sem teto, o menor abandonado, o trabalhador ou trabalhadora explorado e explorada, o indígena... e todos os sujeitos que no dia a dia sentem a opressão desta sociedade; e da mesma forma, também todos que lutam contra ela.
Saibam disso, ou não, portem a cruz, ou não, se digam cristãos, ou não, isso é o que menos importa! 
Presépio!
Latuff
Uma coisa é o Cristo, outra coisa é o que os Homens fizeram com Ele ao deturparem as suas palavras!
Portanto, nesta virada de ano do calendário cristão ocidental, eu deixo aqui, para todos e todas vocês, o meu mais sincero desejo de felicidade, e o pedido de reflexão sobre estas palavras! 
Abraços a todos! E Feliz 2016!