quinta-feira, 8 de março de 2018

Hipátia de Alexandria, a mulher que viveu pela ciência e morreu pela ignorância

O texto a seguir não é de minha autoria, mas sim do amigo Marcelo Zurita da Rede Brasileira de Observação de Meteoros (BRAMON). Estou publicando o texto aqui no Blog com a autorização do mesmo. Resolvi publicar este texto como uma forma de homenagem do Razão à Conta-Gotas às mulheres pelo Dia Internacional das Mulheres e, ao mesmo tempo, trazer o alerta que o texto, e a História de Hipátia, representa contra o Fundamentalismo e a Ignorância, que voltam a crescer em nossa época.

Em 1977, as Nações Unidas reconheceram o dia 8 de março como “Dia Internacional da Mulher”. É uma data que celebra a luta das mulheres pelas igualdades de direitos e condições de trabalho. Mas 8 de março já era adotado como o dia da mulher desde 1917 na Rússia, quando cerca de 90 mil operárias protestaram contra as más condições de trabalho, a fome e a participação russa na guerra. Seis anos antes, também em 8 de março de 1911, trabalhadoras de uma fábrica têxtil de Nova York, declararam greve em protesto pelas más condições de trabalho. 129 mulheres foram mortas nos eventos que se sucederam a essa declaração. Há uma controvérsia sobre como isso ocorreu, mas segundo Victória Sal em seu livro “Dicionário Ideológico Feminista”, durante um dos protestos, todas as saídas da fábrica foram fechadas e o prédio foi incendiado, matando carbonizadas as mulheres que ocupavam o local.
 Caros leitores a história que vou contar hoje fala de uma mulher que fez a diferença no seu tempo, mas como sempre sofreu e infelizmente morreu por conta da ignorância e do preconceito, em um mesmo 8 de março, mas no ano de 415. A história é triste e confesso que relutei em escrever a respeito, porque ela é polêmica e meu ponto de vista pode ser mal interpretado. Entretanto acho que se essa história fosse sempre lembrada, talvez ela não se repetisse tanto como no caso de Nova York em 1911.

Conto aqui a história de Hipátia de Alexandria, que na sua época foi uma das mulheres mais influentes no Egito. Era uma cientista que trabalhava na Biblioteca de Alexandria, que era a maior fonte de conhecimento de todo mundo. Lá estavam armazenados a grande maioria de tudo aquilo que já havia sido escrito pelo homem, em qualquer área do conhecimento e da literatura.
Hipátia era matemática, astrônoma, médica e diretora da escola de filosofia neoplatônica em Alexandria. Um currículo de fazer inveja a qualquer um. Em uma época em que as mulheres viviam à sombra de seus maridos, Hipátia, apesar de muito bonita e de possuir uma grande quantidade de pretendentes, preferia se dedicar aos seus estudos e seu trabalho. Tinha o perfil de uma mulher feminista e independente, uma revolução para a sociedade machista da época. Mas seu pensamento progressista conflitava diretamente com um poder crescente naquela época.
Hipátia de Alexandria
Alexandria era, há tempos, governada por Roma e Hipátia tinha grande proximidade de Orestes, o Governador Romano do Egito. Entretanto, a vida de Orestes no poder não era nada fácil. O mundo passava por transformações com a Igreja Católica expandindo seu poder e tentando eliminar a influência e cultura pagãs. No Egito, seu representante maior era Cirilo, o Bispo de Alexandria e seu poder, por diversas vezes, conflitava com os poderes do Governador Orestes. Os cristãos do Egito, seguidores de Cirilo, tinham um histórico de conflitos contra os judeus, pagãos e contra as autoridades do Egito, inclusive quase vitimando o Governador Orestes.
Cirilo tinha grande desprezo por Hipátia, além dos motivos políticos, ele a considerava um símbolo do paganismo, por sua dedicação ao trabalho e à Ciência. Mas além de estudar muito, Hipátia também ensinava, tinha muitos discípulos que vinham de várias partes do mundo para aprender com ela. Seu local de trabalho, a Biblioteca de Alexandria, maior fonte do conhecimento humano de todo mundo, era considerado pela Igreja como um templo do paganismo. E isso incomodava muito a Cirilo. Segundo o historiador Sócrates de Constantinopla, Cirilo acreditava que ela estava competindo com o cristianismo, levando para longe de Cristo homenagens que pertenciam a ele. Ela estaria roubando de Deus os seus direitos e devia cair.
Todos esses fatos, faziam de Alexandria do início do Século V, uma verdadeira panela de pressão. E no ano de 415, essa panela começou a estourar.
O historiador Sócrates conta que, na tarde de 8 de março de 415, quando voltava do Museu de Alexandria, Hipátia foi atacada em plena rua, arrancada de sua carruagem por uma multidão de cristãos enfurecidos. Ela foi arrastada pelas ruas da cidade até uma igreja, onde foi violentada, teve suas roupas rasgadas e sua carne arrancada dos ossos por conchas afiadas. Depois de morta, seu corpo despedaçado foi queimado fora dos limites da cidade e todos os seus trabalhos, destruídos.
Morte da Filosofa Hipátia, em Alexandria
Créditos: Louis Figuier

Isto aconteceu pouco tempo depois de Orestes ter ordenado a execução de um monge cristão, que havia atacado o Governador a pedradas. A execução deste monge enfureceu o Bispo Cirilo e seus correligionários. Não se sabe ao certo sobre um possível envolvimento de Cirilo na morte de Hipátia. Mas depois desse episódio, Orestes desistiu de sua disputa com Cirilo e abandonou Alexandria.
Os assassinos de Hipátia jamais responderam por esse crime. A Biblioteca de Alexandria foi destruída e junto com ela, grande parte o conhecimento acumulado pela humanidade por séculos. Cirilo seguiu ampliando seu poder e sua influência no mundo cristão. Sempre foi exaltado pela Igreja. Depois de sua morte, 30 anos depois, Cirilo foi santificado. Hoje é conhecido por todos como “São Cirilo” e talvez você tenha um “santinho” dele aí na sua casa.
São Cirilo - Bispo de Alexandria

Quero enfatizar que não conto essa história para questionar fé, religião ou a igreja. Estou apenas expondo fatos que contam a história triste dessa mulher fantástica. Hipátia foi uma mulher muito a frente do seu tempo. Sua história de superação dos paradigmas da época poderiam ter influenciado o mundo a abandonar seus preconceitos e seu machismo. Poderia ter nos levado a um outro patamar científico e de valorização do conhecimento. Entretanto, ela foi morta pelo mesmo preconceito e ignorância que ainda hoje vitima mulheres em todo o mundo.
Atenciosamente,
Marcelo Zurita – (83) 99926-1152
APA – Associação Paraibana de Astronomia
BRAMON – Rede Brasileira de Observação de Meteoros
Asteroid Day Brasil – Coordenação Regional Nordeste

Texto publicado originalmente em: http://www.folhapatoense.com/contributorpost/hipatia-de-alexandria-a-mulher-que-viveu-pela-ciencia-e-morreu-pela-ignorancia/#.WqGVVOjwbIV

quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

DEZ ANOS FATÍDICOS

Segue, para vocês, o segundo texto compilado do livro Alber Einstein, Meus Últimos Anos. O presente texto foi escrito em 1939 às portas da Segunda Guerra Mundial:


Ao ler de novo as linhas que escrevi quase dez anos atrás, sou tomado por duas impressões estranhamente contrastantes. O que escrevi então ainda parece tão essencialmente verdadeiro como sempre; no entanto, tudo aquilo soa curiosamente remoto e estranho. Como é possível? Terá o mundo mudado tão profundamente nestes dez anos, ou será que simplesmente envelheci dez anos e meus olhos veem tudo sob uma luz diferente, mais pálida? Que são dez anos na história da humanidade? Não deveriam todas as forças que determinam a vida do homem ser consideradas constantes, se comparadas a um intervalo tão insignificante? Porventura minha razão crítica é tão suscetível que uma mudança fisiológica ocorrida em meu corpo nesses dez anos pode influenciar tão profundamente minha concepção de vida? Parece-me claro que considerações desse gênero não podem explicar uma mudança na abordagem emocional dos problemas gerais da vida. As razões dessa curiosa mudança tampouco podem ser buscadas em minhas próprias circunstâncias externas; pois sei que estas sempre desempenharam um papel secundário em meus pensamentos e emoções.

Hitler presente uma reunião de uma das células da Juventude Hitlerista

Não, algo muito diferente está envolvido. Nestes dez anos, a confiança na estabilidade da sociedade humana, sim, até na própria base da existência, desapareceu em grande parte. Sentimos não só uma ameaça à herança cultural humana, mas também que se está conferindo um valor mais baixo a tudo aquilo que gostaríamos de ver defendido a todo custo.
Não há dúvida de que em todos os tempos, o homem consciente teve aguda consciência de que a vida é uma aventura, de que a vida deve, permanentemente, ser arrancada da morte. Os perigos eram em parte externos: podíamos cair escada abaixo e quebrar o pescoço, perder nosso meio de subsistência sem nenhuma culpa, ser condenados embora inocentes, ou arruinados por calúnia. A vida na sociedade humana significava perigos de toda sorte; mas esses perigos eram de natureza caótica, sujeitos ao acaso. A sociedade humana como um todo parecia estável. Avaliada pelos ideais do gosto e da moralidade, era claramente imperfeita. Mas, no geral, sentíamo-nos em casa nela e, salvo pelos muitos acidentes possíveis, relativamente seguros. Aceitávamos suas qualidades intrínsecas como naturais, como o ar que respirávamos. Até os padrões de virtude, aspiração e verdade prática eram considerados uma herança inviolável, comum a toda humanidade civilizada.
É certo que a Primeira Guerra Mundial já havia abalado esse sentimento de segurança. A inviolabilidade da vida desaparecera e o indivíduo já não podia agir como convinha e ir aonde queria. A mentira fora alçada à dignidade de um instrumento político. A guerra, no entanto, era vista em grande parte como um evento externo, e pouco ou nada como o resultado de uma ação consciente e planejada do homem. Pensava-se nela como uma interrupção da vida normal do homem, vinda de fora, universalmente considerada lamentável e má. O sentimento de segurança em relação aos objetivos e valores humanos permanecia essencialmente inabalado.
O desdobramento posterior foi acentuadamente marcado por eventos políticos que, em si mesmos, não tem alcance tão amplo quanto seu pano de fundo sociopsicológico, mais difícil de apreender. Primeiro, um rápido e promissor passo à frente, caracterizado pela criação da Liga das Nações através da grandiosa iniciativa de Wilson, e o estabelecimento de um sistema de segurança coletiva entre as nações.
Padres Católicos fazendo a saudação Nazista
Depois, a formação dos Estados fascistas, acompanhada por uma série de pactos violados e atos patentes de violência contra a humanidade e contra nações mais fracas. O sistema de segurança coletiva desabou como um castelo de cartas, com consequências até hoje incalculáveis. Foi uma manifestação de fraqueza de caráter e falta de responsabilidade por parte dos líderes dos países atingidos, e de um míope egoísmo, nas democracias – as que ainda continuam aparentemente intactas – que impediu qualquer contra-ataque vigoroso.
Benito Mussolini e Adolf Hitler
As coisas pioraram ainda mais do que o teria ousado prever o pior dos pessimistas. Na Europa, a leste do Reno, o livre exercício do intelecto não existe mais, a população vive aterrorizada por bandidos que se apossaram do poder e a juventude é envenenada por mentiras sistemáticas. Os pseudossucessos de aventureiros políticos deslumbraram o resto do mundo, torna-se evidente em toda parte que esta geração carece da firmeza e da força que permitiram a gerações anteriores conquistar, mediante penosa luta e grande sacrifício, a liberdade política e intelectual do homem.
A consciência deste estado de coisas ensombrece a cada hora de minha existência atual, ao passo que, dez anos atrás, ainda não ocupava meus pensamentos. É isto que sinto com tanta intensidade ao reler as palavras escritas no passado.
Sei contudo que, no fim das contas, o homem muda muito pouco, ainda que as noções dominantes o façam aparecer sob uma luz muito diversa em diferentes momentos, e ainda que tendências como as que estão hoje em curso lhe tragam um sofrimento inimaginável. De tudo isso, não restará nada além de umas poucas páginas deploráveis nos livros de história, que retratarão sucintamente para a juventude de gerações futuras os desatinos de seus ancestrais.
(Albert Einstein – 1939)