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sexta-feira, 7 de agosto de 2015

APRENDENDO A DESAPRENDER


Primeiro é o indivíduo, depois a família, então a família e os amigos que formam a tribo, depois da tribo a cidade, após a cidade ou feudo, depois destes a província, em seguida o povo, após o povo a espécie. Estes são os níveis de evolução do pensamento sobre o Outro na História humana, claro que nem todos os espaços geográficos e povos seguiram esta mesma linha temporal, mas pode-se dizer que a mesma é uma síntese geral.
Já chegamos no último estágio da citada linha? Não! Alguns sonham em chegar, alguns lutam para que cheguemos, mas ainda nos matamos pela religião, pela cor da pele, ainda nos vemos como diferentes no sentido da divisão interna da espécie. Os indivíduos da espécie não se vêem como espécie, pelo menos não em termos gerais. Prova disso é a corrente frase na boca de uma legião: “Direitos Humanos, para Humanos direitos”! Como se houvesse um Humano direito e um Humano errado, o que há é Ser Humano, ajustado ou não à ordem social em que ele esta inserido, não importa, a sua Condição de Humano se mantém.
Ao refletir sobre isso, fico pensando naquele que necessita ser o nosso próximo estágio de evolução no sentido de nos auto compreendermos e compreendermos o nosso lugar neste planeta: a nossa relação com as demais espécies vivas.
Se não conseguimos nos relacionar nem mesmo conosco, será que um dia conseguiremos nos relacionar de uma maneira mais harmônica, menos agressiva e arrogante com as demais espécies?
Somos ensinados desde o berço por nossas religiões, de que o Universo foi feito para nós. De que somos o ápice da criação, de que tudo o que existe deve nos servir e que temos direito a dominar todos os demais seres vivos.
O que é o Ser Humano na comunidade das espécies? Uma espécie que surgiu no último minuto da História Cósmica, e mesmo assim se atreve a subir na tribuna para falar às outras espécies que estas devam lhe servir? Qualquer indivíduo em nossa roda de amigos, que tenha um discurso parecido com este em relação aos demais indivíduos, seria taxado no minimo de arrogante e lunático. Agora reflitam comigo:

(...)
“E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra.
E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.
E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e
enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.”
(Gênesis 1:26-28)

Este é um trecho fundamental do livro mais vendido de todos os tempos: a Bíblia cristã. Este trecho também esta presente na Torá e no Alcorão, em outras palavras talvez, mas o conceito é o mesmo, afinal não é a toa que as três religiões são chamadas “As religiões do livro”, vejam bem: “do livro”, não “dos livros”, isto porque elas tem a mesma origem teológica e filosófica. Com o desenvolvimento histórico e social as diferenças entre elas se consolidaram, mas mesmo assim elas mantém um vínculo originário.
Relação Antropocêntrica X Relação Sistêmica
Imagem disponível em: https://goo.gl/OyEuyl





E não é só nestas religiões que o conceito de supremacia do Ser Humano esta presente, este conceito perpassa todas as religiões. Sentimos a necessidade de nos sentirmos especiais!.
Na ciência, pelo menos na ciência dominante o conceito não é muito diferente, pode não ter uma explicação mistica, pode se embasar em uma explicação aparentemente racional, mas coaduna com a noção de que o Ser Humano é uma espécie privilegiada e superior em relação às demais.
Quem já não ouviu ou leu estas afirmações: “o Ser Humano é o único animal racional”, “apenas o Ser Humano tem a capacidade de raciocínio”, “o Ser Humano é o único que tem noção de individualidade”, “os animais agem por instinto e o Ser Humano pela Razão” (vejam bem, separamos até os termos animais e Ser Humano, como se também não fossemos animais), “o Ser Humano é o único capaz de criar ferramentas”?
Todas as afirmações acima, e outras, são utilizadas para explicar e justificar “cientificamente” uma suposta superioridade do Ser Humano em relação às demais espécies vivas. A ciência tradicional encara as demais espécies como máquinas extremamente complexas, mas apenas máquinas. Desta forma tanto esta vertente do pensamento científico como o cerne do pensamento religioso, colaboram para difundir e reforçar uma ideia de distinção do Ser Humano para com as demais espécies vivas, e consequentemente da própria natureza.
Esta forma de pensar tem consequências históricas terríveis e é uma das principais razões que nos trouxe ao atual estado de desequilíbrio extremado em nossa relação com o Sistema – Terra.
Sistema - Terra e seus subsistemas
Imagem disponível em: https://goo.gl/fQTvnz


Assim, eu volto a questão inicial: se não conseguimos nem mesmo conviver harmonicamente dentro de nossa própria espécie, conseguiremos construir a necessária harmonia inter-espécies? Necessária, inclusive, para nossa sobrevivência!
Não! Não conseguiremos se não começarmos a questionar conceitos reproduzidos por instituições que se arvoram no direito de dizer quem somos. Para que possamos construir esta necessária harmonia primeiro precisaremos “aprender a desaprender”, como dizia o poeta português Fernando Pessoa.
E este “aprender a desaprender” deve estar presente nas relações mais básicas como a sua relação com o seu animal de estimação ou o animal de estimação do seu vizinho ou vizinha (ou quem sabe o seu gosto questionável – a partir desta nova visão – em assistir uma sessão de tortura animal chamada rodeio) assim como, em questões mais amplas, como por exemplo: o impasse que se consolida quando determinada área de terra vai ser usada para a construção de um shopping ou fábrica, mas a mesma é uma área de mata (uma das poucas que restam) que terá de ser destruída para que isso aconteça em nome de um suposto “progresso”. Assim como os diversos “impasses” entre a visão de progresso de nossa civilização, que não se harmoniza em nada com o Sistema-Terra e a Natureza.
Por isso, repito: podemos até conseguir evoluir, mas tanto na relação intra-espécie como na relação inter-espécies, precisaremos primeiro, “aprender a desaprender”.

(Dedico este texto a duas pessoas:
À minha amiga Aline Ketlyn que a partir da leitura que fiz de um capítulo de seu TCC, sem saber acabou me inspirando a voltar a escrever no Blog  ao mesmo tempo em que me inspirou em escrever um texto trabalhando este tema.
E ao amigo, eternamente presente a partir da continuidade de suas ideias e lutas por uma sociedade Ecossocialista, Paulo Piramba que nos deixou em 2011)

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Ódio e Preconceito fazem mais uma vítima! Bernardino presente!

Eu estava curtindo meu domingo visitando parentes quando recebi a mensagem de um amigo (Prof. Jaime Farherr militante do PSTU) que me informava que na noite anterior, um indígena havia sido assassinado em Guaíra e uma criança havia sido baleada. A noticia me pegou de surpresa, e meu amigo não tinha mais informações do que aquelas parcas e muitas vezes distorcidas informações repassadas pela imprensa local. Depois de algumas trocas de mensagens, decidimos ele, eu e minha namorada (Prof. Teresa Masuzaki) irmos até Guaíra no mesmo dia para obtermos informações mais detalhadas e de fontes mais confiáveis.
Assim que cheguei em casa combinamos o horário para nos dirigirmos a Guaíra, não haviamos até aquele momento conversado com ninguém do Movimento Indígena, por isso tentamos entrar em contato com o Cacique Ilson Soares da Tekohá Y'ouvy. Após algumas tentativas conseguimos entrar em contato, e então informar que estávamos a caminho para fazer uma visita e obter informações.
Fomos em três no carro, Jaime Farherr, Teresa Masuzaki e eu, o clima era de indignação, conversávamos sobre o fato de fazendeiros no Mato Grosso do Sul estarem fazendo leilões para se armarem, criando uma milicia e ao que parecia o governo não estava fazendo nada contra. Minha namorada, Teresa, dormia no banco de trás, cansada da correria do dia e ciente de que ainda teríamos muito a fazer naquele dia, sendo que ela ainda precisaria preparar suas aulas para o dia seguinte.
Ao chegarmos em Guaíra fomos a Tekohá Y'ouvy, onde fomos calorosamente recebidos pelo Cacique Ilson Soares e sua companheira Vicenta.
Crianças na Tekoha Y'ouvy
Após uma breve conversa questionei o cacique e sua esposa se por acaso eles não teriam a disponibilidade de ir conosco à Tekohá Mirim, aldeia onde o indígena assassinado residia. De imediato o cacique se dispôs a ir conosco, sua companheira mostrou apreensão ao dizer que se preocupava com o fato do Ilson sair da aldeia devido as ameaças e ao evento recente, mas mesmo assim ambos foram conosco até a Tekoha Mirim.
No caminho para a Tekohá Mirim, ao passarmos no local do assassinato, Ilson nos informa dentro do carro
_ Foi aqui que aconteceu.
Eu fico surpreso, pois o local é uma avenida, local extremamente iluminado, onde seria perceptível a qualquer um perceber o que acontecia e ver o carro e provavelmente também os seus passageiros. Penso comigo: “Ao que parece a repressão violenta começa a se tornar cada vez mais legitimada a partir do discurso de fomentação do ódio apresentado nos últimos meses. Isso pode se tornar perigoso.”
A aldeia Tekohá Mirim, fica do outro lado da cidade em relação a Aldeia Tekohá Y'ouvy, um local insalubre, próximo a margem brasileira do rio Paraná. Se de maneira geral as Tekohás se encontram em condições precárias a Tekohá Mirim é uma das mais precarizadas, esta é a segunda visita que fiz a mesma. Segundo informações de Arnaldo, cacique da Tekohá Mirim vivem na aldeia pouco mais de 90 indígenas entre homens, mulheres e crianças. Chegamos na aldeia por volta das 21 horas, a primeira coisa que me chama a atenção é o céu estrelado. Um indígena comenta:
_ Escuro aqui, né?
Eu respondo: _ Pelo menos conseguimos ver as estrelas, algo que nas cidades não conseguimos mais.
Logo que chegamos, um grupo de indígenas monta em uma carroça puxada a cavalo e vai embora, provavelmente para suas casas. Nós ficamos ali, na casa do cacique Arnaldo. Ele traz algumas cadeiras para nos sentarmos enquanto sua esposa esta acendendo a fogueira, com a intenção de iluminar o local da conversa (uma vez que já estava anoitecendo) e com a fumaça espantar os mosquitos e borrachudos.
Devido a precariedade das instalações da aldeia: ausência de energia elétrica e sem água tratada para todos a conversa ocorre sob a luz da fogueira, de celulares e de um farolete. Tento anotar algumas coisas, até mudo de lugar para tentar fazer com que a fogueira ilumine minha agenda, mas é impossível. Lembro então que o celular tem a função gravador, então configuro o mesmo e o coloco no centro da roda de forma a gravar a conversa. Na roda percebo os rostos sérios e ao mesmo tempo o olhar apreensivo dos Caciques Ilson e Arnaldo, também estão na roda o Prof. Jaime Farherr, minha namorada Teresa Masuzaki, as esposas dos caciques Vicenta (esposa de Ilson) e Simone (esposa de Arnaldo) e Alexandre, um indígena morador da aldeia onde estávamos. Inicio a conversa informando o motivo de estarmos na aldeia: conseguir informações sobre o assassinato do indígena Bernardino. 
Os dois caciques informam que não é de hoje que eles recebem ameaças, que constantemente os indígenas estão sendo ameaçados na região, e que pessoas chegam a vir na aldeia apenas com o intuito de ameaçá-los.
Mencionam a morte de uma senhora indígena no inicio de 2013, em frente a rodoviária de Guaíra, onde uma camionete da cor branca atropelou a senhora e se evadiu do local. O fato foi apresentado como tendo sido um acidente, mas tudo indica que o atropelamento foi proposital. Questiono sobre o ocorrido com Bernardino, se eles poderiam nos dizer o que aconteceu. Com a resposta deles percebo que a situação é pior do que parece, e que novamente a imprensa local presta um desserviço a população ao noticiar o fato de maneira equivocada, deturpada e por que não, mentirosa.
Clique aqui, aqui, e aqui e veja o discurso repetitivo da imprensa local sobre o fato.
Segundo os caciques Ilson e Arnaldo, diferentemente do noticiado pela imprensa, o fato ocorreu da seguinte maneira:
No sábado o indígena Bernardino e mais alguns se dirigiram a aldeia Tekohá Porã para um jogo de futebol. Segundo as informações que nos foram repassadas, já durante o dia um homem teria proferido ameaças e mostrado uma arma no local do jogo, dizendo: “Pelo menos um índio vai morrer hoje!” 
Bernardino, agora sem vida. Sua luta acabou, 
mas a de seu povo apenas começou!
Fotografia: Ilson Soares (Gentileza)
Após o termino do jogo, o indígena Bernardino e mais 5 menores voltavam para a aldeia Tekohá Mirim, quando um carro prata com três pessoas dentro teria passado por eles e disparado os tiros, naquele momento eles se encontravam em frente a Tekoha Karumbey. Neste lamentável episódio, o indígena Bernardino Dávila veio a óbito e uma criança indígena de 11 anos foi atingida. Existem indícios de que a ideia dos atiradores era eliminar os 6 indígenas ali presentes, ou seja, o objetivo era uma chacina.
Desta forma, o relato que nos foi passado, destoa, e muito, do que vem sendo publicado na imprensa regional sobre o fato. A imprensa local tenta passar a imagem de que foi uma briga de bar, e que a criança que foi baleada é um outro caso independente, quando na verdade o que ocorreu parece ter sido bem diferente.

ONDE ESTA A SUPOSTA INDEPENDÊNCIA E NEUTRALIDADE DA IMPRENSA NA REGIÃO OESTE DO PARANÁ?
Deve estar no bolso de quem à paga!



Este fato, somado as denuncias de ameaças, ao atropelamento da senhora indígena no inicio do ano, ao movimento de armamento dos ruralistas, a constante pressão contra a FUNAI e a população indígena local, ao descaso com que o poder publico vem tratando da situação, ao preconceito que aumenta cada vez mais o índice de suicídios entre os indígenas, só vem agravar ainda mais a complexa situação em que se encontra a região Oeste do PR.
Caixão de Bernardino
Fotografia: Ilson Soares (Gentileza)
Este assassinato, ao que parece uma provável tentativa de chacina, pode acabar sendo a porta aberta para a legitimação de ações violentas por parte dos grupos políticos e econômicos que se posicionam contra a demarcação das reservas indígenas. Os mesmos grupos que financiaram e vem financiando uma campanha de difamação contra a FUNAI e contra os índios, que vem enganando a população com dados falsos sobre o processo de demarcação e vem tentando colocar oprimido contra oprimido de forma a legitimar seu poder e suas atitudes violentas.
Estes olhos não veem mais, esta boca não fala mais!
Mas, no seu silêncio grita por justiça!
Fotografia: Ilson Soares (Gentileza)
É necessário que o poder público tome providências imediatas quanto a estas questões, é necessário que os meios de imprensa que sejam pegos noticiando mentiras sobre o fato sejam multados e acionados judicialmente além de serem denunciados como imprensa mentirosa para a população.
É necessário que as entidades dos movimentos sociais, principalmente da região se unam em torno da causa indígena.
Estes pés não irão mais pisar o solo da Tekoha,
mas sua ausência sinaliza a necessidade da luta!
Fotografia: Ilson Soares (Gentileza)
Quanto tempo mais teremos de esperar? Quantas vidas mais deverão ser ceifadas pela ganância, pelo ódio e pelo preconceito?
Termino este texto que já ficou longo, com um nó na garganta e com um grito:
INDÍGENA BERNARDINO!

_ PRESENTE!

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Racismo Ambiental nas águas de Belo Monte (Por Paulo Piramba)

No intuito de estar participando da Blogagem Coletiva chamada pelo Grupo #EBLOG, e ao mesmo tempo fazer uma homenagem ao meu amigo e camarada Paulo Piramba que faleceu no mês passado, estou republicando um texto de sua autoria.
Dentro da temática da Blogagem coletiva o texto tem como objetivo fazer uma análise crítica e ao mesmo tempo com humor ácido, ao estilo que só o camarada Piramba sabia fazer.
Então, segue com vocês o texto Racismo Ambiental nas águas de Belo Monte (Por Paulo Piramba), uma ótima leitura e boa reflexão! E sei que o Camarada, de uma ou de outra forma esta ainda com a gente!



A imagem ao lado mostra uma cena que não é nova. Um índio, no caso Raoni kayapó, mostra sua indignação em uma reunião com brancos politicamente corretos, em atitude repeitosa.
Poderia ser aquela outra índia, também kayapó, que em 2008 passou o facão no presidente da Eletronorte, numa audiência pública também sobre Belo Monte, no que a revista Veja na época (sem trocadilho) considerou um ataque de “selvagens amazônicos”. http://veja.abril.com.br/280508/p_064.shtml
Desta vez quem teve que aturar impassível o dedo de Raoni, a centímetros de sua cara, foi o aspone da vez Rogério Sotilli, secretário executivo da Secretaria Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, que tinha se refugiado previamente no FSM de Dakar.
Provavelmente as imagens correrão o mundo. Nos países desenvolvidos não faltarão aqueles que se solidarizarão com o “selvagem” que defende sua terra. Outros se lembrarão de Avatar, mesmo que o herói do filme (como brilhantemente percebeu Zizek) seja o colonizador.
Já para o Quarto Mundo, como o ecossocialista Joel Kovel chama os indígenas e povos “sem Estado”, nenhuma novidade. Só mais um capítulo do modelo de “diálogo” que os assim chamados governos progressistas, principalmente os daqui da América Latina, tem praticado.
Nas palavras do próprio aspone de plantão: “Lula prometeu que não enfiaria Belo Monte goela abaixo das populações do Xingu. Sempre ouvi dizer que houve muito diálogo. Talvez, com o que vocês dizem agora, não foi tanto assim (…) Dilma fará o que tem que ser feito. (…) Dilma tem que pensar o Brasil como um todo, atender todos os interesses, incluir toda a nação. (…) Garanto que vamos dialogar, mas claro, podemos não chegar a um consenso”.
Ah, os “interesses do Brasil”, quanta barbárie socio ambiental já se cometeu, e continuará se cometendo, em seu nome. A fala do aspone governamental é clara. Os interesses de todos são muito mais importantes do que os de um pequeno bando de sujeitos, com penas na cabeça e botoques nos beiços.
Todos quem, cara pálida, deve ter pensado Raoni. Se não pensou, penso eu. A construção de Belo Monte tem sido defendida pelos tecnocratas de plantão como a última fronteira entre o fim dos apagões e as cavernas sem luz. Sem a usina de Belo Monte, o Brasil pára, vociferam os editoriais da grande mídia.
Já entre quem deveria estar do nosso lado, existem também defensores do belo monstro que está sendo parido no ventre do desenvolvimentismo, se me perdoam a metáfora gongórica e naftalinesca.Os eco-capitalistas do WWF-Brasil, por exemplo, não são contra desde que “exista um planejamento estratégico da Amazônia como um todo”.
Há também os que, como Luiz Pinguelli, usam a caratonha das usinas termelétricas e nucleares para justificar o “mal menor”. Seria bom estas pessoas passarem o Carnaval no Xingú para explicarem às etnias ameaçadas esse conceito de mal menor.
Finalmente, existem aqueles que se encontram em um Belo Muro,como o SOS Mata Atlântica, “que está voltado para outro bioma”, criando jurisprudência de que desmatamento em bioma dos outros é refresco. Já a senadora Marina, bom a senadora Marina defende a transparência do processo, sem ter opinião pública a favor ou contra.
Já para os 600 mil e pouquinhos cidadãos e cidadãs que assinaram um manifesto contra a construção de Belo Monte, e para vários cientistas e pesquisadores, este processo tem sido um belo monte de meias verdades e mentiras completas, tal como a licença que foi dada pelo Imbroma.
A começar pela energia gerada. 11 megawatts por mês trombeteiam as fanfarras de Brasília. 4 megawatts retrucam os especialistas independentes, devido a vazão do rio. Tá, pode argumentar o nobre leitor, 4 megawatts já são um belo acréscimo para um país tão necessitado de energia para se desenvolver.
Para onde irá a energia gerada por Belo Monte. Se for para fora da Amazônia, teremos de acrescentar o custo da sua transmissão, isso sem falar na qualidade da operação que, por falar nisso, estará a cargo da CHESF, aquela responsável pelo apagão recente no NE.
Essa energia será, dessa forma, muito cara. Certamente não será o “povo pobre e excluído da Amazônia”, como afirma o site do governo do Pará em http://www.pa.gov.br/destaques_gov.asp?id_not=27. Então quem ficará com a energia gerada por Belo Monte? Duas indústrias de alumina que se intalariam no Pará. Outra dica importante é esmiuçar quais foram as empresas que se interessaram em formar consórcios para a construção da usina: Vale, Neoenergia, Votorantim Alumínio e Andrade Gutiierrez. Todas ligadas a indústrias eletrointensivas.
E sobre o argumento de Belo Monte ser uma defesa contra as termelétricas e nucleares, só um lembrete. Minas Gerais, que não é um estado litorâneo, tem potencial eólico 3,5 maior do que Belo Monte. Uma fazenda eólica que começou a ser construída em Norfolk, Inglaterra, gerará 1,1 TERAwatts, com um investimento de US$ 1,5 bilhão. Comparando este empreendimento com uma usina que vai produzir, em média, 4 GIGAwatts (1 Tera = 1000 Gigas), a um custo que pode chegar a US$ 10 bilhões, o desenho do belo monstro começa a tomar forma.
Mas existe um outro custo não contabilizado, muito maior do que esse. Belo Monte é mais um capítulo de um sistema que quer se manter vivo a qualquer preço. Que vende uma idéia de progresso e desenvolvimento sem limites. Que passa por cima de tudo e de todos que se colocarem no seu caminho. Que se coloca como se fosse dono e explorador da natureza.
Esses conceitos de desenvolvimento a qualquer preço, de um progresso ilimitado e infinito e do homem se colocando à parte da natureza, para poder explorá-la, são conceitos da civilização branca, européia, ocidental, cristã, masculina, largamente hegemônica no planeta. E que, é bom que se diga, nos trouxe até à beira da barbárie sócio ambiental que as mudanças climáticas já estão provocando.
Lá no Xingú, quem está no caminjho dessa civilização que coisifica seres humanos e coisas, a tudo atribuindo um preço, de acordo com o valor de mercado, são comunidades indígenas e ribeirinhas, que se colocam como parte da natureza, e que dela dependem para sua sobrevivência pessoal e de suas culturas.
O cacique e a índia Kayapós, com seus botoques e seus peitos de fora, quando capturados pelas câmeras nas reuniões com tecnocratas ou aspones engravatados, mostram diferenças muito além das roupas que usam ou não. O nosso olhar ideologicamente domesticado, mesmo prenhe de boas intenções, acaba, a partir de símbolos exteriores, prejulgando esse choque civilizatório.
E aí, para a maioria de nós, o civilizado é a gravata e não a pena de ave, mesmo que a gravata represente a inviabilidade de uma civilização que parece determinada a se extinguir, levando com ela boa parte da biodiversidade. O índio pelado com pena na cabeça é apenas o “bom selvagem”, que deve ser preservado em reservas-gaiolas cada vez menores, como um pet, como gostam de falar os incluídos.
Mesmo que o seu modo de viver, ou de bem viver, representado pela pena ou o botoque, esteja, como o dedo em riste de Raoni, a poucos centímetros nossas caras, mostrando que existe alternativa ao caos climático e à tragédia socio ambiental anunciadas.
O Racismo é uma ferramenta cara ao capitalismo, que sempre explorou as diferenças para estabelecer um poder sobre classes, raças, povos e etnias. Poder esse necessário para explorá-las e, em caso de necessidade, exterminá-las.
Em relação ao meio ambiente, o Racismo Ambiental é uma maneira de afirmar a superioridade de um modelo civilizatório, mesmo que Roma já esteja em chamas. E de negar outro que valoriza as coisas, as espécies e as pessoas pelo o que elas são, estabelecendo um outra relação, mais harmoniosa, com a natureza.
Paulo Piramba – 11 de Fevereiro de 2011

Fonte: http://ecossocialismooubarbarie.blogspot.com/search/label/Belo%20Monte
PAULO PIRAMBA: PRESENTE! Até quando? SEMPRE!