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sexta-feira, 7 de agosto de 2015

APRENDENDO A DESAPRENDER


Primeiro é o indivíduo, depois a família, então a família e os amigos que formam a tribo, depois da tribo a cidade, após a cidade ou feudo, depois destes a província, em seguida o povo, após o povo a espécie. Estes são os níveis de evolução do pensamento sobre o Outro na História humana, claro que nem todos os espaços geográficos e povos seguiram esta mesma linha temporal, mas pode-se dizer que a mesma é uma síntese geral.
Já chegamos no último estágio da citada linha? Não! Alguns sonham em chegar, alguns lutam para que cheguemos, mas ainda nos matamos pela religião, pela cor da pele, ainda nos vemos como diferentes no sentido da divisão interna da espécie. Os indivíduos da espécie não se vêem como espécie, pelo menos não em termos gerais. Prova disso é a corrente frase na boca de uma legião: “Direitos Humanos, para Humanos direitos”! Como se houvesse um Humano direito e um Humano errado, o que há é Ser Humano, ajustado ou não à ordem social em que ele esta inserido, não importa, a sua Condição de Humano se mantém.
Ao refletir sobre isso, fico pensando naquele que necessita ser o nosso próximo estágio de evolução no sentido de nos auto compreendermos e compreendermos o nosso lugar neste planeta: a nossa relação com as demais espécies vivas.
Se não conseguimos nos relacionar nem mesmo conosco, será que um dia conseguiremos nos relacionar de uma maneira mais harmônica, menos agressiva e arrogante com as demais espécies?
Somos ensinados desde o berço por nossas religiões, de que o Universo foi feito para nós. De que somos o ápice da criação, de que tudo o que existe deve nos servir e que temos direito a dominar todos os demais seres vivos.
O que é o Ser Humano na comunidade das espécies? Uma espécie que surgiu no último minuto da História Cósmica, e mesmo assim se atreve a subir na tribuna para falar às outras espécies que estas devam lhe servir? Qualquer indivíduo em nossa roda de amigos, que tenha um discurso parecido com este em relação aos demais indivíduos, seria taxado no minimo de arrogante e lunático. Agora reflitam comigo:

(...)
“E disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança; e domine sobre os peixes do mar, e sobre as aves dos céus, e sobre o gado, e sobre toda a terra, e sobre todo o réptil que se move sobre a terra.
E criou Deus o homem à sua imagem; à imagem de Deus o criou; homem e mulher os criou.
E Deus os abençoou, e Deus lhes disse: Frutificai e multiplicai-vos, e
enchei a terra, e sujeitai-a; e dominai sobre os peixes do mar e sobre as aves dos céus, e sobre todo o animal que se move sobre a terra.”
(Gênesis 1:26-28)

Este é um trecho fundamental do livro mais vendido de todos os tempos: a Bíblia cristã. Este trecho também esta presente na Torá e no Alcorão, em outras palavras talvez, mas o conceito é o mesmo, afinal não é a toa que as três religiões são chamadas “As religiões do livro”, vejam bem: “do livro”, não “dos livros”, isto porque elas tem a mesma origem teológica e filosófica. Com o desenvolvimento histórico e social as diferenças entre elas se consolidaram, mas mesmo assim elas mantém um vínculo originário.
Relação Antropocêntrica X Relação Sistêmica
Imagem disponível em: https://goo.gl/OyEuyl





E não é só nestas religiões que o conceito de supremacia do Ser Humano esta presente, este conceito perpassa todas as religiões. Sentimos a necessidade de nos sentirmos especiais!.
Na ciência, pelo menos na ciência dominante o conceito não é muito diferente, pode não ter uma explicação mistica, pode se embasar em uma explicação aparentemente racional, mas coaduna com a noção de que o Ser Humano é uma espécie privilegiada e superior em relação às demais.
Quem já não ouviu ou leu estas afirmações: “o Ser Humano é o único animal racional”, “apenas o Ser Humano tem a capacidade de raciocínio”, “o Ser Humano é o único que tem noção de individualidade”, “os animais agem por instinto e o Ser Humano pela Razão” (vejam bem, separamos até os termos animais e Ser Humano, como se também não fossemos animais), “o Ser Humano é o único capaz de criar ferramentas”?
Todas as afirmações acima, e outras, são utilizadas para explicar e justificar “cientificamente” uma suposta superioridade do Ser Humano em relação às demais espécies vivas. A ciência tradicional encara as demais espécies como máquinas extremamente complexas, mas apenas máquinas. Desta forma tanto esta vertente do pensamento científico como o cerne do pensamento religioso, colaboram para difundir e reforçar uma ideia de distinção do Ser Humano para com as demais espécies vivas, e consequentemente da própria natureza.
Esta forma de pensar tem consequências históricas terríveis e é uma das principais razões que nos trouxe ao atual estado de desequilíbrio extremado em nossa relação com o Sistema – Terra.
Sistema - Terra e seus subsistemas
Imagem disponível em: https://goo.gl/fQTvnz


Assim, eu volto a questão inicial: se não conseguimos nem mesmo conviver harmonicamente dentro de nossa própria espécie, conseguiremos construir a necessária harmonia inter-espécies? Necessária, inclusive, para nossa sobrevivência!
Não! Não conseguiremos se não começarmos a questionar conceitos reproduzidos por instituições que se arvoram no direito de dizer quem somos. Para que possamos construir esta necessária harmonia primeiro precisaremos “aprender a desaprender”, como dizia o poeta português Fernando Pessoa.
E este “aprender a desaprender” deve estar presente nas relações mais básicas como a sua relação com o seu animal de estimação ou o animal de estimação do seu vizinho ou vizinha (ou quem sabe o seu gosto questionável – a partir desta nova visão – em assistir uma sessão de tortura animal chamada rodeio) assim como, em questões mais amplas, como por exemplo: o impasse que se consolida quando determinada área de terra vai ser usada para a construção de um shopping ou fábrica, mas a mesma é uma área de mata (uma das poucas que restam) que terá de ser destruída para que isso aconteça em nome de um suposto “progresso”. Assim como os diversos “impasses” entre a visão de progresso de nossa civilização, que não se harmoniza em nada com o Sistema-Terra e a Natureza.
Por isso, repito: podemos até conseguir evoluir, mas tanto na relação intra-espécie como na relação inter-espécies, precisaremos primeiro, “aprender a desaprender”.

(Dedico este texto a duas pessoas:
À minha amiga Aline Ketlyn que a partir da leitura que fiz de um capítulo de seu TCC, sem saber acabou me inspirando a voltar a escrever no Blog  ao mesmo tempo em que me inspirou em escrever um texto trabalhando este tema.
E ao amigo, eternamente presente a partir da continuidade de suas ideias e lutas por uma sociedade Ecossocialista, Paulo Piramba que nos deixou em 2011)

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Poluição e Educação: uma financiando a outra! Isto é o Capitalismo.

Na tentativa de resolver o problema do financiamento da Educação no Brasil, esta se debatendo nos últimos dias a proposta de que 100% dos Royalts do Petróleo deveriam ir para o setor.
Praticamente todo mundo esta apoiando a proposta, mas será que já paramos para pensar no que isso realmente significa?
Todos sabem que vivemos um momento de crise ambiental, e também é de conhecimento público que uma das maiores fontes da poluição é o processo de utilização do petróleo, desde a sua extração até o seu uso final como combustivel e derivados.
A exploração do Pré-Sal já pode ser considerada como a abertura de uma "caixa de Pandora", e o preço da abertura desta caixa vai ser cobrado de nossos filhos e netos, assim como hoje estamos pagando o preço pelos erros ambientais de nossos pais.
No meu entender, este projeto que busca destinar o dinheiro dos Royalts do Petróleo para a educação é uma falácia para desviar a nação dos verdadeiros problemas.
É folclórica a figura da pessoa que tenta aprisionar dois animais com uma peneira, mas, ao aprisionar um solta o outro e vice-versa, pois usa apenas uma peneira para tentar resolver uma questão  que precisaria de duas peneiras.
Ou seja, não se resolve um problema criando outro! Isso não é solução! E é isso que estão defendendo!
Afinal, nós iremos financiar a educação com o dinheiro da poluição? É isso? Daremos educação por um lado, e pelo outro deixamos nossos filhos sem um mundo com condições ambientais adequadas? Financiar a educação com o dinheiro do Petróleo é tapar um buraco e abrir outro maior ainda, literalmente falando. 
Mas, então qual é a solução?
O financiamento da educação, deve vir do dinheiro que hoje vai para os bancos. 
A dívida pública deve ser auditada, e os bancos devem pagar o que nos devem, por que na verdade eles é que são os verdadeiros devedores. O valor investido na educação, se comparado com o valor que escorre pelo gargalo da divída pública é irrisório, devemos ter 10% do PIB já para a educação, e não o finânciamento a partir do petróleo.
Orçamento de 2011.
Veja quanto foi para cada setor, quanto foi para a Dívida Pública e quanto foi para a Educação.

Até por que o valor dos royalts é muito inferior ao que é realmente necessário, não se percebe que esta é apenas uma tática, no intuito de vincular o financiamento da educação a exploração do petróleo, e desta forma conseguir justificativas para uma exploração poluidora?
Por que não ousam mexer com os bancos? POR QUE O MEDO?!
Vejam quem fica com o dinheiro dos nossos impostos! É por causa deles que não há dinheiro para a Educação, Saúde e outros!
O dinheiro que vai para a educação, não deve estar sujo com o óleo que polui nossos mares, rios, ares e acaba com nosso ecossistema! O dinheiro da educação, deve ser o dinheiro que hoje é destinado aos bancos.
E quanto ao petróleo? Deixe-mos ele lá! Não precisamos dele! Não devemos abrir mais ainda a "caixa de pandora"! Eu quero que meus filhos tenham educação de qualidade, gratuita e laica! Mas, também quero que eles tenham um ambiente ecológicamente correto, para poderem viver com saúde, ter um direito não significa abrir mão de outro direito!
Não devemos abrir mão do direito a um ambiente ecológicamente correto, para poder-mos ter o direito a educação!

A própria Constituição nos dá os dois direitos, ao citar:

no Art. 205 "A educação, direito de todos e dever do Estado e da família, será promovida e incentivada com a colaboração da sociedade, visando ao pleno desenvolvimento da pessoa, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho."

e no Art. 225 "Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao poder público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá-lo para as presentes e futuras gerações."
 
Desta forma, eu digo aqui: 
QUEREMOS OS DOIS DIREITOS QUE NOS SÃO GARANTIDOS! NÃO UM SÓ! NÃO QUEREMOS E NÃO DEVEMOS ESCOLHER!
A CONSTITUIÇÃO NÃO FALA EM ESCOLHA, NÓS TEMOS DIREITO AOS DOIS!
POR ISSO, DEFENDEMOS QUE O DINHEIRO DA EDUCAÇÃO, SEJA AQUELE QUE HOJE VAI PARA OS BANCOS, E QUE NÃO SEJA O DINHEIRO SUJO DA EXPLORAÇÃO DE UM DOS MATEIRAIS MAIS POLUENTES DA HISTÓRIA!

O papel dos educadores não é reproduzir o senso comum, e muito menos dizer aquilo que as pessoas querem ouvir! O nosso papel, é avaliar e analisar a sociedade antes de dizer qualquer coisa, e quando disser-mos deve-mos dizer o que deve ser dito, e não o que querem que seja dito!
Não é criando um problema que resolvemos outro! Não precisamos do petróleo, precisamos de educação e o financiamento desta deve vir do dinheiro que hoje vai para a dívida pública, e não do fomento a poluição ambiental!
Precisamos de politícas de governo incisivas com relação a qualidade e gratuidade da educação, e o direito da população a um meio ambiente ecológicamente correto!
Com relação ao petróleo, existem tecnologias alternativas, podemos usá-las, e com relação ao financiamento da educação, existe uma fonte de recursos muito maior (conforme o demonstrado aqui) e com vontade politíca também podemos usá-la.
Auditoria da Dívida Pública, já!
10% do PIB para a educação pública já, e não ao petróleo!
Não à exploração do Pré-Sal e outras reservas, e sim ao desenvolvimento e fomento de tecnologias e técnicas ambientalmente corretas e pela implementação social do seu uso, e não adstritas aos interesses do mercado!
Sou Educador! SOU ECOSSOCIALISTA!!!!!!!

sábado, 23 de julho de 2011

Paulo Piramba! Você não se foi! Ainda esta entre nós!

Segue homenagem ao companheiro/camarada, amigo e guerreiro na luta Ecossocialista Paulo Piramba que faleceu hoje no RJ:




Paulo Piramba! Até quando? Sempre! Com certeza sempre!
Grande lutador, amigo e combatente aguerrido pela causa ecossocialista, foi o idealizador desta lista*, um dos idealizadores do setorial, e um dos grandes defensores de que este seja um dos eixos do PSOL!
Paulo Piramba, você se foi em corpo, mas seu exemplo ficou e rendeu frutos! Seu exemplo de vida, suas defesas e suas ideias conquistaram diversos lutadores para a causa!
Você nos foi retirado em um momento difícil, um momento em que temos diversos desafios a enfrentar, muitas batalhas a ganhar, vai ser mais árdua a caminhada sem sua presença, mesmo que a distância através de um artigo, ou de palavras escritas. Vai ser mais difícil, infelizmente somos mortais e devido a isso muitas vezes nos vamos sem que nos seja permitido acabar aquilo que começamos, ou ver a semente que plantamos se transformar em árvore!
Mas, podem ter certeza a sua luta não foi em vão! Aqui ficaram pessoas que irão continuar a mesma, e em sua homenagem cuidar da árvore que você ajudou a plantar, fazer com que ela se desenvolva e possamos construir, como era seu sonho, uma sociedade mais justa, fraterna e igualitária, assim como ecológica!
Uma sociedade Ecossocialista! Você se foi em corpo, mas fica em nossas mentes e corações através de seus exemplos, ensinamentos e da amizade que tivemos a oportunidade de compartilhar!
Paulo Piramba! Até quando? Sempre!
Você camarada, com certeza foi alguém que se manteve fiel na pratica e na teoria aos ensinamentos de Marx quando ele disse: 
"Mesmo uma sociedade inteira, uma nação, ou mesmo todas as sociedades existentes num dado momento em conjunto, não são donas da Terra. São simplesmente suas possuidoras, suas beneficiárias, e têm que a legar, num estado melhorado, para as gerações seguintes, como bons pais (e mães) de família".
Esse foi sempre seu objetivo, sua luta na vida! E em sua homenagem continuará sendo a nossa! A melhor maneira de homenagear um guerreiro que lutou a nosso lado, é continuar a luta ao qual ele dedicou sua vida!
Não direi Adeus Companheiro/Camarada, pois você ainda esta conosco, apesar de não mais podermos olhar nos seus olhos!


Luciano Egidio Palagano
Presidente do PSOL - Marechal Cândido Rondon - PR
Militante Ecossocialista que foi conquistado a causa pelo camarada Piramba!


* Referência a lista dos Ecossocialistas do PSOL.

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Crise terminal do capitalismo?


Ecologia
Leonardo Boff 
Leonardo Boff
Tenho sustentado que a crise atual do capitalismo é mais que conjuntural e estrutural. É terminal.
Chegou ao fim o gênio do capitalismo de sempre adaptar-se a qualquer circunstância. Estou consciente de que são poucos que representam esta tese. No entanto, duas razões me levam a esta interpretação.

A primeira é a seguinte: a crise é terminal porque todos nós, mas particularmente, o capitalismo, encostamos nos limites da Terra. Ocupamos, depredando, todo o planeta, desfazendo seu sutil equilíbrio e exaurindo excessivamente seus bens e serviços a ponto de ele não conseguir, sozinho, repor o que lhes foi sequestrado. Já nos meados do século XIX, Karl Marx escreveu profeticamente que a tendência do capital ia na direção de destruir as duas fontes de sua riqueza e reprodução: a natureza e o trabalho. É o que está ocorrendo.
A natureza, efetivamente, se encontra sob grave estresse, como nunca esteve antes, pelo menos no último século, abstraindo das 15 grandes dizimações que conheceu em sua história de mais de quatro bilhões de anos. Os eventos extremos verificáveis em todas as regiões e as mudanças climáticas tendendo a um crescente aquecimento global falam em favor da tese de Marx. Como o capitalismo vai se reproduzir sem a natureza? Deu com a cara num limite intransponível.
O trabalho está sendo por ele precarizado ou prescindido. Há grande desenvolvimento sem trabalho. O aparelho produtivo informatizado e robotizado produz mais e melhor, com quase nenhum trabalho. A consequência direta é o desemprego estrutural.
Milhões nunca mais vão ingressar no mundo do trabalho, sequer no exército de reserva. O trabalho, da dependência do capital, passou à prescindência. Na Espanha o desemprego atinge 20% no geral e 40% e entre os jovens. Em Portugal, 12% no pais, e 30% entre os jovens. Isso significa grave crise social, assolando neste momento a Grécia. Sacrifica-se toda uma sociedade em nome de uma economia, feita não para atender as demandas humanas mas para pagar a dívida com bancos e com o sistema financeiro. Marx tem razão: o trabalho explorado já não é mais fonte de riqueza. É a máquina.
A segunda razão está ligada à crise humanitária que o capitalismo está gerando. Antes se restringia aos países periféricos. Hoje é global e atingiu os países centrais. Não se pode resolver a questão econômica desmontando a sociedade. As vítimas, entrelaças por novas avenidas de comunicação, resistem, se rebelam e ameaçam a ordem vigente. Mais e mais pessoas, especialmente jovens, não estão aceitando a lógica perversa da economia política capitalista: a ditadura das finanças que via mercado submete os Estados aos seus interesses e o rentitentismo dos capitais especulativos que circulam de bolsas em bolsas, auferindo ganhos sem produzir absolutamente nada a não ser mais dinheiro para seus rentistas.
Mas foi o próprio sistema do capital que criou o veneno que o pode matar: ao exigir dos trabalhadores uma formação técnica cada vez mais aprimorada para estar à altura do crescimento acelerado e de maior competitividade, involuntariamente criou pessoas que pensam. Estas, lentamente, vão descobrindo a perversidade do sistema que esfola as pessoas em nome da acumulação meramente material, que se mostra sem coração ao exigir mais e mais eficiência a ponto de levar os trabalhadores ao estresse profundo, ao desespero e, não raro, ao suicídio, como ocorre em vários países e também no Brasil.
As ruas de vários países europeus e árabes, os "indignados" que enchem as praças de Espanha e da Grécia são manifestação de revolta contra o sistema político vigente a reboque do mercado e da lógica do capital. Os jovens espanhois gritam: "não é crise, é ladroagem". Os ladrões estão refestelados em Wall Street, no FMI e no Banco Central Europeu, quer dizer, são os sumo-sacerdotes do capital globalizado e explorador.
Ao agravar-se a crise, crescerão as multidões, pelo mundo afora, que não aguentam mais as consequências da super-exploracão de suas vidas e da vida da Terra e se rebelam contra este sistema econômico que faz o que bem entende e que agora agoniza, não por envelhecimento, mas por força do veneno e das contradições que criou, castigando a Mãe Terra e penalizando a vida de seus filhos e filhas.
Leonardo Boff é teólogo e escritor, autor do livro "Proteger a Terra – cuidar da vida: como evitar o fim do mundo" (Record 2010).
Publicado originalmente no site da Fundação Lauro Campos - Socialismo e Liberdade
24/06/11 12:02 PM

sábado, 16 de abril de 2011

Verdes Ou Vermelhos?

Verdes ou Vermelhos? Não caro leitor, esta não é uma pergunta que expressaria a cruel dúvida de um torcedor do Inter e do Palmeiras, tendo de assistir à um jogo destes dois times um contra o outro, e o torcedor não sabendo para quem torcer!
É uma pergunta que expressa sim uma dúvida, mas uma dúvida que é apresentada dentro de alguns setores de esquerda. Ser verde na atual conjuntura de desastre ambiental ou ser vermelho devido a continuidade da exploração inserida dentro da relação capital-trabalho?
Parece uma pergunta importante e prioritária, mas quero argumentar aqui que esta é uma pergunta retórica, mera falácia, expressão de um engano de análise da conjuntura atual da sociedade e dos próprios escritos de Marx.
Uma das maiores armas do capitalismo é a capacidade de apresentar a realidade de forma diferente da maneira como ela realmente esta organizada, é a velha relação entre essência e aparência das coisas dentro do capital, relação esta que já trabalhei em um artigo dividido em três partes aqui mesmo neste blog.
Bom, fazer esta pergunta é cair nesta armadilha, é se deixar enganar por essa capacidade do capital!
É impossível ser verde de verdade sem ser vermelho, e ser vermelho sem ser verde é não compreender a grandeza da obra marxista, que já no séc. XIX se preocupava com as questões ecológicas e com a maneira irracional que o Capital se apropriava da natureza.
A revolução verde passa pela revolução vermelha, e a revolução vermelha só pode ser verdadeiramente vitoriosa com a revolução verde! As duas devem acontecer juntas, ao mesmo tempo!
Logo a questão de ser verde ou vermelho é uma falsa questão, o verdadeiro verde só é verde se também for vermelho, e o verdadeiro vermelho só é vermelho de forma completa se também for verde!
Para entender este erro de interpretação, devemos primeiro entender como o pensamento de Marx via a natureza, em primeiro lugar Marx via dentro da natureza a dialética, que se expressava também na maneira como o ser humano se relaciona com a natureza.
A Dialética que é a chave da compreensão do materialismo histórico, e é dela que precisamos para compreender a relação homem-natureza, e as próprias relações internas da natureza!
Enfim, a natureza é também expressão da própria dialética! E não ver a dialética dentro da natureza, e na relação que o homem mantém com ela que é o erro que muitos Marxistas cometem, justificando assim a pergunta falaciosa com que comecei este texto. Também é este o erro que muitos ambientalistas caem ao analisarem a relação humana com o mundo natural. E caindo neste erro, nem os marxistas e nem os ambientalistas conseguem verdadeiramente superar o senso comum dentro da questão ambiental.
Resumindo e muito, tentarei aqui dar uma breve exposição da visão de Marx da natureza: A tradição marxista ocidental coloca que a Dialética não se aplica a natureza, mas apenas a sociedade. Ou seja a dialética seria expressão única e exclusiva das relações sociais, e é neste ponto que nasce o erro de interpretação. Na sua obra nos pontos em que trata da natureza, Marx faz uma crítica tanto a Leibniz como a Darwin. Leibniz por ver o mundo natural como um todo harmônico (visão expressa em muitas das correntes verdes), e Darwin por ver a natureza como expressão da competição entre as espécies (visão da natureza expressa em muitas das chamadas correntes marxistas), mas segundo Marx nenhuma das duas visões é completamente certa, nem completamente errada. A harmonia esta presente na natureza, assim como a competição, só que dentro de uma relação dialética entre as duas, e é este ponto chave que muitas vezes é esquecido, a Dialética.
Marx, em sua obra, unifica Leibniz e Darwin dialeticamente, inserindo nas relações naturais tanto a tendência a competição/destruição como a sustentabilidade.
Para Marx, as relações dentro da natureza tendem tanto para um lado (competição), como para o outro lado (sustentabilidade/harmonia). e é justamente esta relação entre estas duas tendências intrínsecas ao mundo natural que se pode definir como dialética dentro da natureza. Assim como a própria matéria existe dialeticamente, entre o não ser da energia e entre o ser da matéria, criando assim a tendência a existir da realidade (física quântica). Para Marx, a competição apresentada por Darwin, agindo dialeticamente com a tendência a harmonia apresentada por Leibniz, cria dentro da natureza tanto a tendência a destruição quanto a tendência a sustentabilidade, e é este fio delicado que une uma a outra, que Marx identifica ao analisar a natureza dialeticamente. Ele percebe que a natureza tende a sustentabilidade tanto quanto a autodestruição, e o ser humano pode pesar esta delicada balança tanto para um lado como para o outro, dependendo da maneira como constrói as suas relações com a natureza.
Assim, a pergunta inicial não merece resposta, além daquela que diz que não há como ser verde sem ser vermelho, e nem ser vermelho sem ser verde!
E a única maneira de salvar a sustentabilidade em nosso planeta é findar com um sistema econômico que fortalece a tendência a autodestruição da natureza, pendendo assim a balança para este lado. E para findar com esta sistema econômico é necessário ser vermelho, mas também não basta socializar a produção e seu produto, se mantiver-mos os mesmos patamares de relacionamento com o mundo natural. A revolução vermelha, só pode ser vitoriosa, se junto dela vier a revolução verde, mudando também a maneira como nos relacionamos com a natureza. E isso não é automático, para que isso aconteça é necessário compreender como o homem interfere no mundo natural, e para que esta compreensão seja possível, é necessária a compreensão da dialética da natureza, apresentada nos escritos de Marx. E durante muito tempo, relegada ao esquecimento, ou ao segundo plano. Falar em ecologia dentro da luta socialista, não é enfeitar com confetes da moda a luta, e nem desvirtuar os escritos marxistas, mas sim complementar a compreensão que se teve de Marx durante todo século XX. Ou seja, é enxergar a Dialética, como ela realmente é, presente em todas as esferas, tanto as sociais, como as naturais. Não são confetes, mas sim a identificação de raízes da preocupação da obra marxista, até então deixadas ao largo.
Logo, respondendo a pergunta, sejamos bicolores! Vermelhos e Verdes ao mesmo tempo, ambos assim, com letras maiúsculas! Desta maneira, e só assim, conseguiremos construir um mundo justo em termos sociais, e verdadeiramente sustentável na maneira de nos relacionar-mos com o mundo natural!
Abraços Verdes e Vermelhos!
Logo, Ecossocialistas!