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quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Mais um capítulo em uma História de Extermínio!

 Nem toda Cachoeira é bela!
Nem toda água é límpida!
As vezes, ela é VERMELHA...de sangue.

Vivemos uma fase de extermínio. Não! Vivemos a continuidade do extermínio constante.
Uma continuidade do extermínio, que tem inicio com a expansão marítimo-comercial dos países europeus para o resto do mundo. Um extermínio que derrama e mancha de sangue o velho continente, os novos continentes e o continente mãe: ÁFRICA, nosso berço comum.
Um extermínio de povos, de nações, de indivíduos, que ao longo da história se somam, como uma enorme cascata vermelha, de números vermelhos. Vermelhos de sangue, do sangue derramado em cada quinhão do solo deste planeta ao qual demos o nome de Terra!
Cada um destes números (vermelhos) se sobrepõe a outro, um após o outro, em uma progressão aritmética que parece ser infinita! Progressão esta, que se multiplicada pelas lágrimas derramadas por cad'alma, que cada um destes números vermelhos da cascata vermelha representa, teremos então uma progressão geométrica incalculável.
Afinal, são pelo menos 500 anos de lágrimas derramadas por Pais, Mães, Irmãos, Irmãs, Filhos, Filhas, Esposos, Esposas, Amigos, Amigas... Quem pode calcular cada uma destas lágrimas?!
Quem tem o poder de quantificar o “quantum” desta água salgada, que em cada coração teve um gosto amargo? Estimando assim, talvez, o total, o tamanho do LUTO gerado por este extermínio constante.
Deus? O MESMO DEUS QUE MUITAS VEZES É USADO COMO ARGUMENTO PELOS QUE MATAM?!
A Ciência? A MESMA CIÊNCIA DOS SENHORES DO PROGRESSO/REGRESSO, QUE COORDENAM, ORGANIZAM E SE BENEFICIAM DO EXTERMÍNIO?!
Não! NÃO HÁ, QUEM TENHA TAL CAPACIDADE!
No momento presente, vivenciamos no Brasil mais um capítulo desta história de luto! 
E por ironia da história, o país é governado hoje por pessoas que há algumas décadas se encontravam no outro lado da trincheira. Quem é pior: o inimigo do outro lado da trincheira ou o antigo amigo que trai seu colega de batalha e passa para o outro lado?
Apesar do capítulo ser novo, o alvo da vez é antigo: novamente as nações indígenas.
O argumento agora não é mais a Religião, e seu simbolo não é mais a Cruz. Ele é chamado de “Progresso”, “Desenvolvimento”, Expansão Econômica” e seu símbolo é o dinheiro. Mas, o motivo por trás do argumento continua sendo o mesmo. Ele se chama: COBIÇA, AVAREZA, EGOÍSMO, GANÂNCIA, INDIVIDUALISMO...
A morte do indígena Bernardino ocorrida há poucos dias no município de Guaíra na região Oeste do Paraná, juntamente com diversas outras mortes Brasil a fora (de indígenas ou não), se somam a progressão aritmética da cascata de mortes. As lágrimas derramadas por cada uma destas mortes, se somam ao “quantum” de lágrimas derramadas ao longo da história. Ao longo de uma História de extermínio que já dura séculos!

Mas, nem esta e nem as demais mortes serão quantificadas pelo Capital ou por aqueles que o controlam. Da mesma forma, as lágrimas derramadas também não serão quantificadas.
Para o Capital e os capitalistas não importam as pessoas e suas lágrimas! Os capitalistas não quantificam sentimentos, eles quantificam coisas, renda. E quem não tem a necessária renda “per capita”, eles decapitam sem dó nem piedade, caso se coloque entre eles (capitalistas) e as coisas que eles querem quantificar!
Mas, nas palavras de Arnaldo Antunes:

As coisas têm peso,
massa,
volume,
tamanho,
tempo,
forma,
cor,
posição,
textura,
duração,
densidade,
cheiro,
valor,
consistência,
profundidade,
contorno,
temperatura,
função,
aparência,
preço,
destino,
idade,
sentido.
As coisas não tem paz.
(Arnaldo Antunes)
Representante dos Capitalistas/Ruralistas Brasileiros


Logo, se buscamos Paz, não é nas coisas que a encontraremos! E o ruído ensurdecedor desta cachoeira vermelha, de números vermelhos, cada um deles uma morte, cada um deles muitas lágrimas, lembra aos que lutam, aos que podem vir a ser o próximo número a se somar a cachoeira, a necessidade da busca desta Paz.
Mas, só existe um meio de conseguir a Paz: eliminar o motivo da Guerra!
E o motivo desta guerra (que já dura séculos) é o fato das coisas terem mais valor do que as pessoas. Logo, o único meio de conseguir a Paz é eliminar a razão disto acontecer: e ela se chama CAPITALISMO.
O Capitalismo deve ser destruído, para só então termos a oportunidade de construirmos uma sociedade Humana no sentido mais pleno do termo, e onde as coisas sejam apenas coisas e não Razão de Existência.
E para todos os que não fazem “ouvidos moucos” ao som desta Cachoeira Vermelha de sangue: ESTE É NOSSO DEVER E NOSSA MISSÃO!
Assim, termino este breve desabafo e ao mesmo tempo uma reflexão, e como a lista de mártires na luta é interminável, sendo que muitos inclusive nem conhecidos são, não menciono nomes, apenas digo como saudação final:
_ MÁRTIRES DA LUTA SOCIAL!
_ PRESENTES!

Curitiba (do Guarani: Muito Pinhão ou Terra de Muitos Pinheiros) Paraná (do Tupi: Semelhante ao Mar)

20 horas 02 minutos – 28/11/2013

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Ódio e Preconceito fazem mais uma vítima! Bernardino presente!

Eu estava curtindo meu domingo visitando parentes quando recebi a mensagem de um amigo (Prof. Jaime Farherr militante do PSTU) que me informava que na noite anterior, um indígena havia sido assassinado em Guaíra e uma criança havia sido baleada. A noticia me pegou de surpresa, e meu amigo não tinha mais informações do que aquelas parcas e muitas vezes distorcidas informações repassadas pela imprensa local. Depois de algumas trocas de mensagens, decidimos ele, eu e minha namorada (Prof. Teresa Masuzaki) irmos até Guaíra no mesmo dia para obtermos informações mais detalhadas e de fontes mais confiáveis.
Assim que cheguei em casa combinamos o horário para nos dirigirmos a Guaíra, não haviamos até aquele momento conversado com ninguém do Movimento Indígena, por isso tentamos entrar em contato com o Cacique Ilson Soares da Tekohá Y'ouvy. Após algumas tentativas conseguimos entrar em contato, e então informar que estávamos a caminho para fazer uma visita e obter informações.
Fomos em três no carro, Jaime Farherr, Teresa Masuzaki e eu, o clima era de indignação, conversávamos sobre o fato de fazendeiros no Mato Grosso do Sul estarem fazendo leilões para se armarem, criando uma milicia e ao que parecia o governo não estava fazendo nada contra. Minha namorada, Teresa, dormia no banco de trás, cansada da correria do dia e ciente de que ainda teríamos muito a fazer naquele dia, sendo que ela ainda precisaria preparar suas aulas para o dia seguinte.
Ao chegarmos em Guaíra fomos a Tekohá Y'ouvy, onde fomos calorosamente recebidos pelo Cacique Ilson Soares e sua companheira Vicenta.
Crianças na Tekoha Y'ouvy
Após uma breve conversa questionei o cacique e sua esposa se por acaso eles não teriam a disponibilidade de ir conosco à Tekohá Mirim, aldeia onde o indígena assassinado residia. De imediato o cacique se dispôs a ir conosco, sua companheira mostrou apreensão ao dizer que se preocupava com o fato do Ilson sair da aldeia devido as ameaças e ao evento recente, mas mesmo assim ambos foram conosco até a Tekoha Mirim.
No caminho para a Tekohá Mirim, ao passarmos no local do assassinato, Ilson nos informa dentro do carro
_ Foi aqui que aconteceu.
Eu fico surpreso, pois o local é uma avenida, local extremamente iluminado, onde seria perceptível a qualquer um perceber o que acontecia e ver o carro e provavelmente também os seus passageiros. Penso comigo: “Ao que parece a repressão violenta começa a se tornar cada vez mais legitimada a partir do discurso de fomentação do ódio apresentado nos últimos meses. Isso pode se tornar perigoso.”
A aldeia Tekohá Mirim, fica do outro lado da cidade em relação a Aldeia Tekohá Y'ouvy, um local insalubre, próximo a margem brasileira do rio Paraná. Se de maneira geral as Tekohás se encontram em condições precárias a Tekohá Mirim é uma das mais precarizadas, esta é a segunda visita que fiz a mesma. Segundo informações de Arnaldo, cacique da Tekohá Mirim vivem na aldeia pouco mais de 90 indígenas entre homens, mulheres e crianças. Chegamos na aldeia por volta das 21 horas, a primeira coisa que me chama a atenção é o céu estrelado. Um indígena comenta:
_ Escuro aqui, né?
Eu respondo: _ Pelo menos conseguimos ver as estrelas, algo que nas cidades não conseguimos mais.
Logo que chegamos, um grupo de indígenas monta em uma carroça puxada a cavalo e vai embora, provavelmente para suas casas. Nós ficamos ali, na casa do cacique Arnaldo. Ele traz algumas cadeiras para nos sentarmos enquanto sua esposa esta acendendo a fogueira, com a intenção de iluminar o local da conversa (uma vez que já estava anoitecendo) e com a fumaça espantar os mosquitos e borrachudos.
Devido a precariedade das instalações da aldeia: ausência de energia elétrica e sem água tratada para todos a conversa ocorre sob a luz da fogueira, de celulares e de um farolete. Tento anotar algumas coisas, até mudo de lugar para tentar fazer com que a fogueira ilumine minha agenda, mas é impossível. Lembro então que o celular tem a função gravador, então configuro o mesmo e o coloco no centro da roda de forma a gravar a conversa. Na roda percebo os rostos sérios e ao mesmo tempo o olhar apreensivo dos Caciques Ilson e Arnaldo, também estão na roda o Prof. Jaime Farherr, minha namorada Teresa Masuzaki, as esposas dos caciques Vicenta (esposa de Ilson) e Simone (esposa de Arnaldo) e Alexandre, um indígena morador da aldeia onde estávamos. Inicio a conversa informando o motivo de estarmos na aldeia: conseguir informações sobre o assassinato do indígena Bernardino. 
Os dois caciques informam que não é de hoje que eles recebem ameaças, que constantemente os indígenas estão sendo ameaçados na região, e que pessoas chegam a vir na aldeia apenas com o intuito de ameaçá-los.
Mencionam a morte de uma senhora indígena no inicio de 2013, em frente a rodoviária de Guaíra, onde uma camionete da cor branca atropelou a senhora e se evadiu do local. O fato foi apresentado como tendo sido um acidente, mas tudo indica que o atropelamento foi proposital. Questiono sobre o ocorrido com Bernardino, se eles poderiam nos dizer o que aconteceu. Com a resposta deles percebo que a situação é pior do que parece, e que novamente a imprensa local presta um desserviço a população ao noticiar o fato de maneira equivocada, deturpada e por que não, mentirosa.
Clique aqui, aqui, e aqui e veja o discurso repetitivo da imprensa local sobre o fato.
Segundo os caciques Ilson e Arnaldo, diferentemente do noticiado pela imprensa, o fato ocorreu da seguinte maneira:
No sábado o indígena Bernardino e mais alguns se dirigiram a aldeia Tekohá Porã para um jogo de futebol. Segundo as informações que nos foram repassadas, já durante o dia um homem teria proferido ameaças e mostrado uma arma no local do jogo, dizendo: “Pelo menos um índio vai morrer hoje!” 
Bernardino, agora sem vida. Sua luta acabou, 
mas a de seu povo apenas começou!
Fotografia: Ilson Soares (Gentileza)
Após o termino do jogo, o indígena Bernardino e mais 5 menores voltavam para a aldeia Tekohá Mirim, quando um carro prata com três pessoas dentro teria passado por eles e disparado os tiros, naquele momento eles se encontravam em frente a Tekoha Karumbey. Neste lamentável episódio, o indígena Bernardino Dávila veio a óbito e uma criança indígena de 11 anos foi atingida. Existem indícios de que a ideia dos atiradores era eliminar os 6 indígenas ali presentes, ou seja, o objetivo era uma chacina.
Desta forma, o relato que nos foi passado, destoa, e muito, do que vem sendo publicado na imprensa regional sobre o fato. A imprensa local tenta passar a imagem de que foi uma briga de bar, e que a criança que foi baleada é um outro caso independente, quando na verdade o que ocorreu parece ter sido bem diferente.

ONDE ESTA A SUPOSTA INDEPENDÊNCIA E NEUTRALIDADE DA IMPRENSA NA REGIÃO OESTE DO PARANÁ?
Deve estar no bolso de quem à paga!



Este fato, somado as denuncias de ameaças, ao atropelamento da senhora indígena no inicio do ano, ao movimento de armamento dos ruralistas, a constante pressão contra a FUNAI e a população indígena local, ao descaso com que o poder publico vem tratando da situação, ao preconceito que aumenta cada vez mais o índice de suicídios entre os indígenas, só vem agravar ainda mais a complexa situação em que se encontra a região Oeste do PR.
Caixão de Bernardino
Fotografia: Ilson Soares (Gentileza)
Este assassinato, ao que parece uma provável tentativa de chacina, pode acabar sendo a porta aberta para a legitimação de ações violentas por parte dos grupos políticos e econômicos que se posicionam contra a demarcação das reservas indígenas. Os mesmos grupos que financiaram e vem financiando uma campanha de difamação contra a FUNAI e contra os índios, que vem enganando a população com dados falsos sobre o processo de demarcação e vem tentando colocar oprimido contra oprimido de forma a legitimar seu poder e suas atitudes violentas.
Estes olhos não veem mais, esta boca não fala mais!
Mas, no seu silêncio grita por justiça!
Fotografia: Ilson Soares (Gentileza)
É necessário que o poder público tome providências imediatas quanto a estas questões, é necessário que os meios de imprensa que sejam pegos noticiando mentiras sobre o fato sejam multados e acionados judicialmente além de serem denunciados como imprensa mentirosa para a população.
É necessário que as entidades dos movimentos sociais, principalmente da região se unam em torno da causa indígena.
Estes pés não irão mais pisar o solo da Tekoha,
mas sua ausência sinaliza a necessidade da luta!
Fotografia: Ilson Soares (Gentileza)
Quanto tempo mais teremos de esperar? Quantas vidas mais deverão ser ceifadas pela ganância, pelo ódio e pelo preconceito?
Termino este texto que já ficou longo, com um nó na garganta e com um grito:
INDÍGENA BERNARDINO!

_ PRESENTE!

segunda-feira, 1 de julho de 2013

A Esquerda ainda lembra de seus Mártires? Um alerta e um desabafo.

Irmã Dorothy Stang

Fumaça, reza, espiritualidade! Senso de união, democracia direta, ausência de propriedade privada! COMUNIDADE no seu sentido mais pleno da palavra!
Há dois dias atrás, durante 4 horas eu vivenciei isso! Tive esta experiência, e ela me tocou. Tanto que aquelas 4 horas me fazem falta agora. Onde vivi estas 4 horas? Em uma aldeia indígena.
Não sei se foi bom ou ruim, por que naquele momento, compartilhando da bebida do milho e participando da reza, eu me senti parte de uma comunidade que não era a minha, mas que me recebeu como parte dela, e agora sinto falta disso.
Coração apertado, pensamentos que surgem e desaparecem tão rápidos, que nem me dou conta do que querem dizer, ou do que realmente são.
Sinto o ar a minha volta, as teclas em meus dedos que correm soltos pelo teclado, em um ato automático sem que meu cérebro se dê conta do que realmente estão fazendo.
Sofro! Sofro pelos que estão, sofro pelos que foram, sofro pelos que vão!
É como se sentisse em meu corpo,e na minha mente, cada morte, cada angústia, cada dor, daqueles que em seu momento derradeiro foram obrigados a abandonar a luta de toda uma vida, mas ao mesmo tempo com este abandono serviram de exemplos para os que ficaram.
Pe. Ezequiel Ramin
 Celebração do Dia do Lavrador em Cacoal - RO.
Mártires das lutas sociais, que morreram por cometerem o único pecado de lutarem por um mundo melhor, não para si, mas para os outros.
Mártires de todas as cores! Mártires de todos os povos! Mártires de todos os credos! Mártires de todas as épocas!
Alguns nominados e lembrados, outros para sempre esquecidos!
E nós?
Os vivos, ditos lutadores, autoproclamados militantes.
E nós?
Que fazemos para honrar a luta destas vidas que foram ceifadas?
Nominamos instituições, centros de estudos, centros acadêmicos, ONG's, escolas, faculdades, ruas, avenidas, prédios... Criamos cartas de apoio e denuncia, que muitas vezes são veiculadas apenas entre nós mesmos. Levamos pessoas as ruas, onde elas gritam sem saber por que.
Pe. Ezequiel Ramin encontrado morto.
E depois, a noite, debaixo de um teto que nos esconde do olhar acusador das estrelas, as mesmas que viram a luta dos mártires. Em cima de uma cama confortável, com o estomago cheio de comida regada a cerveja ou vinho, dormimos tranquilos, com a sensação de missão cumprida.
E sonhamos! Sonhamos que somos grandes líderes revolucionários, que nossas ideias mudam o mundo, e somos ovacionados por todos!
Sonhamos!
Sonhamos e acordamos! 
E levantamos, para fazer agora o mesmo de antes, e sonhar com o mesmo de sempre!

Chico Mendes
Chico Mendes, Santos Dias da Silva, Dorothy Stang, Olga Prestes, Zumbi, Pe. Ezequiel Ramin, Pe. João Bosco Penido Burnier, Margarida Maria Alves, Silvia Marribel Arriola, Nestor Paz Zamorra, Tito Alencar Lima, Nativo da Natividade de Oliveira, Dom Romero, Dircelina Folador, Marçal Tupã-i, Galdino Jesus dos Santos, Pe. Rodolfo Lukenbein, Pe. Vicente Cañas e tantos outros que deram sua vida e sua morte pela luta dos oprimidos.



Marçal Tupã-i

Estamos agindo de forma a honrar a luta destas pessoas?
Neste momento de comoção popular, eu vejo um aumento de pautas conservadoras, pautas que estas pessoas tanto combateram, e ao mesmo tempo eu vejo a chamada esquerda apegada aos seus castelinhos particulares, no lugar de se unir para a construção de um mundo melhor.
Vejo dentro da esquerda, aproveitadores piores do que muitos da direita, que se usam da influência que tem sobre outros e sobre entidades, não para construir um mundo melhor, não para levar adiante a luta pela pauta da classe trabalhadora, mas sim, para levar adiante apenas as suas pautas particulares.
E enquanto ficamos correndo atrás do nosso próprio rabo, enquanto ficamos brincando de militância e de ser esquerda, enquanto sonhamos em ser grandes líderes e acordamos apenas para fazer aquilo que sempre fizemos, o tempo passa, a exploração continua, e os mártires de ontem, precisam assumir a obrigação de arranjar espaço para os mártires de hoje e do futuro.
Zumbi dos Palmares (Não se sabe se a imagem é real)
É claro que sei que existem pessoas que não agem desta maneira, mas infelizmente, estes não são os que tem o controle do leme do barco! E o barco, bom, este segue pela correnteza des-re-governado, sendo dirigido para o precipício. E neste precipício, se encontra o fim de qualquer possibilidade de construção para todos, daquele tipo de comunidade descrita no inicio deste texto, e talvez também se encontre o fim da comunidade que inspirou a descrição, e muitas outras comunidades, que como ela, estão espalhadas pelo mundo afora.

E ENTÃO, ESQUERDA BRASILEIRA?
QUANDO VOCÊ VAI ASSUMIR A SUA HISTÓRIA E HONRAR SEUS MÁRTIRES?
Ainda é tempo!!!

terça-feira, 14 de maio de 2013

NOTA PÚBLICA DA CPT: Ministra afronta a Constituição Brasileira



Comissão Pastoral da Terra – Secretaria Nacional
Assessoria de Comunicação

NOTA PÚBLICA
 
Ministra afronta a Constituição Brasileira
A Coordenação Nacional da Comissão Pastoral da Terra vem a público para manifestar sua indignação e repúdio ao que faz o atual governo federal, em defesa da sua visão monocrática de desenvolvimento e de submissão aos interesses do agronegócio.
A ministra da Casa Civil, Gleisi Hoffman, no dia 8 de maio, em reunião da Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados, deixou claro qual é a verdadeira e única visão do atual governo em relação aos sérios e graves conflitos que envolvem os povos indígenas.
As diversas manifestações indígenas que vêm ocorrendo nos últimos anos, que mostram sua total discordância com projetos que afetam sua vida e seus territórios, são atribuídos pela ministra a grupos que usam o nome dos índios, tentando, com isso, desqualificar suas ações como se eles apenas  fossem massa de manobra nas mãos de outros interesses. “Não podemos negar que há grupos que usam os nomes dos índios e são apegados a crenças irrealistas, que levam a contestar e tentar impedir obras essenciais ao desenvolvimento do país, como é o caso da hidrelétrica de Belo Monte”, disse ela textualmente. E acrescentou: “O governo não pode concordar com propostas irrealistas que ameaçam ferir a nossa soberania e comprometer o nosso desenvolvimento”.  A ministra deixa patente que o econômico é o único compromisso do atual governo. Nada pode impedir que os propalados “progresso e desenvolvimento” avancem sobre novas áreas, desconhecendo totalmente os direitos dos povos que há séculos ali vivem e convivem, se assim o governo definir como essenciais ao desenvolvimento.
Com essa fala, ela acaba por legitimar toda a violência empreendida contra os povos originários no país. E confirma que o atual modelo de “desenvolvimento” é o mesmo que se implantou no Brasil, desde a época do Brasil Colônia, e se repetiu nos diversos períodos de nossa história. Esquece-se ela, porém, que a Constituição, em seu artigo 231 garantiu: “São reconhecidos aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam, competindo à União demarcá-las, proteger e fazer respeitar todos os seus bens” e que o Brasil é signatário de acordos internacionais que corroboram estes direitos. As declarações da ministra soam como uma afronta à Constituição brasileira. 
E não são só palavras. Para garantir que as obras que o governo se propõe realizar não sejam interrompidas, como nos tempos da ditadura militar, militariza-se a questão. Em 12 de março, a Presidente Dilma assinou o Decreto nº 7957/2013, que dá poderes ao próprio governo federal, através de seus ministros de Estado, para convocar a Força Nacional em qualquer situação que avaliarem necessário. E lá está a Força Nacional na região onde se pretende construir o complexo Hidrelétrico do Tapajós. E estava em Belo Monte para retirar os cerca de 200 indígenas de 8 etnias diferentes, que ocupavam o canteiro de obras da usina, depois que o governo conseguiu liminar da justiça para que os mesmos fossem retirados, até mesmo com o uso da força. Pacificamente como entraram, os indígenas deixaram o local.
E não fica só nisso. Nas regiões, onde os índios depois de decênios de espoliação, tentam reaver pequena parte do território que lhes pertencia, o Palácio do Planalto desqualifica os trabalhos da Funai propondo submeter os estudos de identificação e delimitação de terras indígenas à análise da Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa), contrariando, mais uma vez a legislação brasileira.
Aliado a isso tudo, a campanha anti-indígena que se desenvolve no Congresso Nacional com a PEC 215, que quer transferir as atribuições constitucionais da Presidência da República em reconhecer territórios indígenas e de outras comunidades tradicionais para o Senado, e a portaria 303 da Advocacia Geral da União que pretendia estender a todo o Brasil, as condicionantes definidas para a TI Raposa Serra do Sol, nos dão um quadro de como, depois de cinco séculos, os indígenas são vistos e tratados neste país.
A Coordenação da CPT espera que nossa Constituição seja respeitada em primeiro lugar pelo próprio governo, garantindo “aos índios sua organização social, costumes, línguas, crenças e tradições, e os direitos originários sobre as terras que tradicionalmente ocupam”, e também sobre os territórios dos quais foram espoliados. A preocupação da CPT se dá, também, com relação aos quilombolas e outras comunidades tradicionais sobre as quais cresce a pressão do capital, apoiado pelos poderes públicos.  É hora de respeitar e de garantir a diversidade presente em nosso país, e o espaço físico para reprodução física e cultural dos povos e comunidades existentes. 
Goiânia, 13 de maio de 2013.
Coordenação Nacional da Comissão Pastoral da Terra (CPT)

quinta-feira, 9 de maio de 2013

UM POUCO DE BOM SENSO, NÃO FAZ MAL A NINGUÉM...


"O bom senso é a coisa do mundo mais bem distribuída: todos pensamos tê-lo em tal medida que até os mais difíceis de contentar nas outras coisas não costumam desejar mais bom senso do que aquele que têm." (René Descartes)

"Não basta termos um bom espírito, o mais importante é aplicá-lo bem." (René Descartes)

Olá pessoal! Faz tempo que não escrevo, não é mesmo? Já estava com saudades de vocês, mesmo dos que leem o blog só para fazer a critica depois (hehehehe) afinal, aqui não temos medo de criticas, temos medo é da ausência de capacidade de uma critica consistente!
Quero começar este texto invocando as duas reflexões acima de autoria de René Descartes. A primeira (que fala diretamente sobre BOM SENSO), faz menção a quantidade de bom senso que cada um tem, e ao mesmo tempo o quanto cada um acredita ter. A frase levanta o fato, de que muitas vezes nos achamos portadores da verdade e do chamado bom senso, e nem sempre (justamente por nos visualizarmos desta forma) agimos como se realmente o tivéssemos  pois ao acharmos que estamos sempre certos, de que nossas ideias são as corretas e não aceitarmos coloca-las a prova, fugimos exatamente daquilo que dizemos ter: BOM SENSO.
A segunda frase nos alerta que não basta termos “bom espirito”, ou seja, termos capacidade de análise critica dos fatos, para separarmos a mentira e a enganação da verdade. É necessário usar esta capacidade, pois uma capacidade que existe mas não é usada, tem resultado nulo, a consequência do não uso é a mesma de sua não existência.
Por que estas duas frases? Por que invocar a capacidade de discernimento e o bom senso (além do fato de ser “Chiquê” começar um texto citando Descartes (risos))? Porque o que estamos vendo ocorrer na Região Oeste do Paraná ultimamente, é exatamente o contrário disso: DISCERNIMENTO e BOM SENSO. E infelizmente, mesmo pessoas com senso critico, estão caindo em um discurso falacioso e disseminador do ódio. É incrível, mas isso mostra que precisamos sempre estar alertas para nos atermos ao Bom Senso, e utilizarmos o nosso Senso Critico (que é nato ao ser humano, pois se não o fosse não haveria ciência  esta que é uma produção humana entre todas as especies da Terra, e tem como base o senso critico, que tem como base a razão, e que leva ao discernimento da verdade) antes de acreditarmos nas informações que nos são apresentadas, sejam por autoridades, sejam pela mídia  seja inclusive por este blog. Por este Blog??? Sim! Por que não? Afinal, o próprio nome do Blog apela a Razão, logo não quero que o leitor seja um crédulo, nem mesmo em mim. Pois a fé pertence à esfera da religião, e aqui não fazemos religião, apesar de, de vez em quando, falarmos sobre! Ou seja, devemos apelar sempre ao Bom Senso, mas para conseguirmos isso precisamos usar de nosso Senso Critico! E é justamente o caminho contrário a este, que vem sendo apontado a população da Região Oeste nos últimos tempos, inclusive por diversas de suas lideranças politicas.
A Universidade, como um espaço de desenvolvimento do pensamento científico  do discernimento, do senso critico, do conhecimento, do BOM SENSO baseado no método científico cartesiano, tem papel fundamental em tentar apontar outro caminho a população oestina.
E foi (e esta sendo) com esta intenção, que diversas entidades ligadas a UNIOESTE (juntamente com outras entidades externas) estão se organizando para trazer um pouco de BOM SENSO ao debate sobre a Questão Indígena no Oeste do Paraná. O primeiro ato destas entidades foi (após uma visita ao Município de Guaíra), construir um documento intitulado MANIFESTO DE APOIO AOS INDÍGENAS DE GUAÍRA E TERRA ROXA NO PARANÁ/BRASIL que buscou iniciar um contraponto no debate exposto, buscando apresentar os argumentos do Movimento Indígena colocados por eles mesmos. Pois vem se percebendo que existe uma desigualdade (que esta vinculada ao peso do poder econômico e politico na balança social), com relação a possibilidade de exposição dos argumentos e pautas de cada lado. Outra coisa que se percebeu, é que existe uma certa confusão que é explorada por algumas pessoas (que mantém interesse econômico e politico na região) com relação a questão da demarcação de uma ou algumas possível/possíveis reserva(s) indígena(s) no Oeste do PR. E esta confusão (que esta sendo muito bem explorada por alguns, no lugar de ser desfeita) é solo fértil para um discurso de ódio que traz à região um clima de tensão e medo, o que possibilita o uso da população (principalmente dos pequenos produtores) no apoio de pautas que são de interesses, principalmente, do grande latifúndio e não destes mesmos pequenos produtores.
Como foi colocado acima, diversas entidades da UNIOESTE estão se mobilizando na tentativa de trazer um pouco de BOM SENSO a este debate, e desmistificar muitas das mentiras e meias verdades que estão sendo divulgadas, o primeiro ato foi o lançamento da nota mencionada, o segundo ato foi uma entrevista em uma radio regional com uma liderança indígena, com o indigenista da FUNAI e um representante do Centro Acadêmico de Direito XVIII de Novembro.
O terceiro ato ocorreu ontem, com um evento na UNIOESTE Campus de Toledo que reuniu diversos acadêmicos de diversos cursos, e tinha na composição da mesa a Prof. Dra. Marise Rauber Engelbrecht do curso de Serviço Social, o Indigenista da FUNAI Diogo de Oliveira, e duas lideranças indígenas: Cacique Ilson Soares Karai Okasu e a Vice-líder Paulina Martins Kunha Takua, ambos da aldeia Tekoha y Hovy. O encontro serviu como um momento de apresentação dos anseios da população indígena do Oeste, e desmistificou para os acadêmicos muitas das mentiras que estão sendo propaladas na região. Inclusive por diversas lideranças politicas e alguns órgãos de imprensa que caem no (e reproduzem o) discurso, talvez sem verificarem a veracidade das informações.
Não vou aqui fazer uma descrição do debate, pois você, caro leitor, pode assistir  vídeo abaixo e ver pessoalmente (em vídeo, é claro) o que foi apresentado. Afinal, é sempre bom ter a informação direto da fonte, não é mesmo?
Clique aqui e veja o depoimento das duas lideranças indígenas presentes no evento, e entenda o que eles realmente querem
No dia 14/05/13 ocorrerá encontro com proposta semelhante, desta vez no Campus de Marechal Cândido Rondon com a presença do Indigenista Diogo de Oliveira. É a UNIOESTE, cumprindo com seu papel de UNIVERSIDADE, que esta muito além de ser apenas um local de Ensino, a UNIVERSIDADE deve ser um local de difusão da Razão, do Bom Senso, do Senso Critico, todos critérios fundamentais para o pensamento cientifico e que deveriam estar na base do pensamento da população em geral. Mas não estão, e não por culpa desta mesma população, e sim muitas vezes por culpa daqueles que são beneficiados politica e economicamente pela sua ausência. Desta forma, as entidades, e através das entidades a UNIOESTE, contribuem para a construção de uma solução razoável para a situação posta.
E a luta continua... sempre por um mundo melhor, onde não haja mais desigualdade de classe, ou seja, onde não haja mais classes sociais!
Vejam abaixo algumas fotografias do evento do dia 08/05:
Apresentação Cultural
Apresentação Cultural


Apresentação Cultural
Apresentação Cultural
Apresentação Cultural. Integração! ;)



Apresentação Cultural: Integração II ;)

Na mesa: Diogo de Oliveira, Ilson Soares Karai Okasu e Paulina  Martins  Kunha Takua

Na mesa: Prof. Dra. Marise Rauber Engelbrecht, Diogo de Oliveira, Ilson Soares Karai Okasu e Paulina  Martins  Kunha Takua

Paulina Martins Kunha Takua

Alguns integrantes da Organização do evento, juntamente com  Diogo de Oliveira e as lideranças indígenas.


quarta-feira, 1 de junho de 2011

Nota Pública da Comissão Pastoral da Terra!

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NOTA PÚBLICA

O Estado não pode lavar as mãos diante de mortes anunciadas

A Coordenação Nacional da Comissão Pastoral da Terra reputa como muito
estranhas as afirmativas de representantes da Secretaria Estadual de Segurança
Pública do Pará, do Ibama e do Incra que disseram no dia 25 de maio desconhecer as
ameaças de morte sofridas pelos trabalhadores José Claudio Ribeiro da Silva e Maria
do Espírito Santo da Silva, assassinados a mando de madeireiros no dia 24, em Nova
Ipixuna (PA). O ouvidor agrário nacional, Gercino José da Silva Filho, chegou a afirmar
que o casal não constava de nenhuma relação de ameaçados em conflitos agrários,
elaborada pela Ouvidoria ou pela Comissão Nacional de Combate à Violência no
Campo.

A CPT, que desde 1985 presta um serviço à sociedade brasileira registrando e
divulgando um relatório anual dos conflitos no campo e das violências sofridas pelos
trabalhadores e trabalhadoras, com destaque para os assassinatos e ameaças de
morte, desde 2001 registrou entre os ameaçados de morte o nome de José Claudio.
Seu nome aparece nos relatórios de 2001, 2002 e 2009. E nos relatórios de 2004,
2005 e 2010 constam o nome dele e de sua esposa, Maria do Espírito Santo. Pela sua
metodologia, a CPT registra a cada ano só as ocorrências de novas ameaças.
Também o nome de Adelino Ramos, assassinado no dia 27 de maio, em Vista
Alegre do Abunã, Rondônia, constou da lista de ameaçados de 2008. Em 22 de julho
de 2010, o senhor Adelino participou de audiência, em Manaus, com o Ouvidor Agrário
Nacional, Dr. Gercino Filho, e a Comissão de Combate à Violência e Conflitos no
Campo e denunciou as ameaças que vinha sofrendo constantemente, inclusive
citando nomes dos responsáveis pelas ameaças.

No dia 29 de abril de 2010, a CPT entregou ao ministro da Justiça, Luiz Paulo
Barreto, os dados dos Conflitos e da Violência no Campo, compilados nos relatórios
anuais divulgados pela pastoral desde 1985. Um dos documentos entregue foi a
relação de Assassinatos e Julgamentos de 1985 a 2009. Até 2010, foram
assassinadas 1580 pessoas, em 1186 ocorrências. Destas somente 91 foram a
julgamento com a condenação de apenas 21 mandantes e 73 executores. Dos
mandantes condenados somente Vitalmiro Bastos de Moura, o Bida, acusado de ser
um dos mandantes do assassinato de Irmã Dorothy Stang, continua preso.
As mortes no campo podem se intitular de Crônicas de mortes anunciadas. De
2000 a 2011, a CPT tem registrado em seu banco de dados ameaças de morte no
campo, contra 1.855 pessoas. De 207 pessoas há o registro de terem sofrido mais de
uma ameaça. E destas, 42 foram assassinadas e outras 30 sofreram tentativas de
assassinato. 102 pessoas, das 207, foram ou são lideranças e 27 religiosos ou
agentes de pastoral.

O que se assiste em nosso país é uma contra-reforma agrária e é uma falácia o
tal desmatamento zero. O poder do latifúndio, travestido hoje de agronegócio, impõe
suas regras afrontando o direito dos posseiros, pequenos agricultores, comunidades
quilombolas e indígenas e outras categorias camponesas. Também avança sobre
reservas ambientais e reservas extrativistas. O apoio, incentivo e financiamento do
Estado ao agronegócio, o fortalece para seguir adiante, acobertado pelo discurso do
desenvolvimento econômico que nada mais é do que a negação dos direitos
fundamentais da pessoa, do meio ambiente e da natureza. Isso ficou explícito durante
a votação do novo Código Florestal que melhor poderia se denominar de Código do
Desmatamento. Além de flexibilizar as leis, a repugnante atitude dos deputados
ruralistas, que vaiaram o anúncio da morte do casal, vem reafirmar que o interesse do
grupo está em garantir o avanço do capital sobre as florestas, pouco se importando
com as diferentes formas de vida que elas sustentam e muito menos com a vida de
quem as defende. A violência no campo é alimentada, sobretudo, pela impunidade,
como se pode concluir dos números dos assassinatos e julgamentos. O poder
judiciário, sempre ágil para atender os reclamos do agronegócio, mostra-se pouco ou
nada interessado quando as vítimas são os trabalhadores e trabalhadoras do campo.
A morte é uma decorrência do modelo de exploração econômica que se
implanta a ferro e fogo. Os que tentam se opor a este modelo devem ser cooptados
por migalhas ou promessas, como ocorre em Belo Monte, silenciados ou eliminados.

A Coordenação Nacional da CPT vê que na Amazônia matar e desmatar
andam juntos. Por isso exige uma ação forte e eficaz do governo, reconhecendo e
titulando os territórios das populações e comunidades amazônidas, estabelecendo
limites à ação das madeireiras e empresas do agronegócio em sua voracidade sobre
os bens da natureza. Também exige do judiciário medidas concretas que ponham um
fim à impunidade no campo.

Goiânia, 30 de maio de 2011.
A Coordenação Nacional da CPT

sexta-feira, 27 de maio de 2011

Aprovada a destruição. Que fazer?

O texto abaixo não é de minha autoria, mas a jornalista ao escreve-lo expressou não só o meu sentimento, mas o de milhares de lutadores espalhados pelo nosso país, e em uma clara alusão ao acontecimento biblíco da traição de Judas, poderia muito bem ter como título "Os trinta dinheiros":
por Elaine Tavares
26-Mai-2011
Vivemos um eterno retorno quando se trata da proteção aos latifundiários e grandes empresas internacionais. No Brasil contemporâneo, pós-ditadura, nunca houve um governo sequer que buscasse, de verdade, uma outra práxis no campo. Todos os dias, nas correntes ideológicas do poder, disseminadas pela mídia comercial – capaz de atingir quase todo o país via televisão – podemos ver, fragmentadas, as notícias sobre a feroz e desigual queda de braço entre os destruidores capitalistas e as gentes que querem garantir vida boa e plena aos que hoje estão oprimidos e explorados.
Nestes dias de debate sobre o novo Código Florestal, então, foi um festival. As bocas alugadas falavam da votação e dos que são contra o código como se fossem pessoas completamente desequilibradas, que buscam impedir o progresso e o desenvolvimento do país. Não contentes com todo o apoio que recebem da usina ideológica midiática, os latifundiários e os capatazes das grandes transnacionais que já dominam boa parte das terras brasileiras, ainda se dão ao luxo de usar velhos expedientes, como o frio assassinato, para fazer valer aquilo que consideram como seu direito: destruir tudo para auferir lucros privados.
Assim, nos exatos dias de votação do novo código, jagunços fuzilam Zé Claudio, conhecido defensor da floresta amazônica. Matam ele e a mulher, porque os dois incomodavam demais com esse papo verde de preservar as árvores. Discursos tolo, dizem, de quem emperra a distribuição da riqueza - deles próprios, é claro. E o assassinato acontece, sem pejo, no mesmo dia em que os deputados discutem como fazer valer – para eles – os seus 30 dinheiros sujos de sangue.
Imagens diferentes, mas igualmente desoladoras. De um lado, a floresta devastada e as vidas ceifadas à bala, do outro a tal da "casa do povo", repleta de gente que representa, no mais das vezes, os interesses escusos de quem lhes enche o bolso. Pátria? País? Desenvolvimento? Progresso? Bobagem! A máxima que impera é do conhecido personagem de Chico Anísio, o deputado Justo Veríssimo: eu quero é me arrumar!
No projeto construído pelo agronegócio só o que se contempla é o lucro dos donos das terras, dos grileiros, dos latifundiários. Menos mata preservada, legalização da destruição, perdão de todas as dívidas e multas dos grandes fazendeiros. Assim é bom falar de progresso. Progresso de quem, cara pálida? Ao mesmo tempo, os "empresários" do campo, incapazes de mostrar a cara, lotam as galerias com a massa de manobra.
Pequenos produtores que acreditam estar defendendo o seu progresso. De que lhes valerá alguns metros a mais de terra na beira de um rio se na primeira grande chuva, o rio, sem a proteção da mata ciliar, transborda e destrói tudo? Que lógica tacanha é essa que impede de ver que o homem não está descolado da natureza, que o homem é natureza?
Que tamanha descarga de ideologia os graúdos conseguem produzir que leva os pequenos produtores a pensar que é possível dominar a natureza, como se ao fazer isso não estivessem colocando grilhões em si mesmo? Desde há muito tempo – e gente como Chico Mendes, irmã Doroty e Zé Claudio já sabia - que o ser humano só consegue seguir em frente nesta terra se fizer pactos com as outras forças da natureza. E que nestes pactos há que se respeitar o que estas forças precisam sob pena de ele mesmo (o humano) sucumbir.
O novo Código Florestal foi negociado dentro das formas mais rasteiras da política. Por ali, na grande casa de Brasília, muito pouca gente estava interessa em meio ambiente, floresta, árvore, rio, pátria, desenvolvimento. O negócio era conseguir cargo, verba, poder. Que se danem no inferno pessoas como Zé Cláudio, que ficam por aí a atrapalhar as negociatas. Para os que ali estavam no plenário da Câmara gente como o Zé e sua esposa Maria não existem. São absolutamente invisíveis e desnecessários. Haverão de descobrir seus assassinos, talvez prendê-los por algum tempo, mas, nas internas comemorarão: ‘menos um, menos um’.
Assim, por 410 x 63, venceram os destruidores. Poderão desmatar à vontade num tempo em que o planeta inteiro clama por cuidado. Furacões, tsunamis, alagamentos, mortes. Quem se importa? Eles estarão protegidos nas mansões. Não moram em beiras de rio. Dos 16 deputados federais de Santa Catarina apenas Pedro Uczai votou não. Até a deputada Luci Choinacki, de origem camponesa votou sim, contrariando tudo o que sempre defendeu.
Então, na mesma hora em que a floresta chorava por dois de seus filhos abatidos a tiros, os deputados celebravam aos gritos uma "vitória" sobre o governo e sobre os ecologistas. Daqui a alguns dias se verá o tipo de vitória que foi. Mas, estes, não se importarão. Não até que lhes toque uma desgraça qualquer. O cacique Seatlle, da etnia Suquamish, já compreendera, em 1855, o quanto o capitalismo nascente era incapaz de viver sem matar: "Sabemos que o homem branco não compreende o nosso modo de viver. Para ele um torrão de terra é igual ao outro. Porque ele é um estranho, que vem de noite e rouba da terra tudo quanto necessita. A terra não é sua irmã, nem sua amiga, e depois de exauri-la, ele vai embora. Deixa para trás o túmulo de seu pai sem remorsos.
Rouba a terra de seus filhos, nada respeita. Esquece os antepassados e os direitos dos filhos. Sua ganância empobrece a terra e deixa atrás de si os desertos. Suas cidades são um tormento para os olhos do homem vermelho, mas talvez seja assim por ser o homem vermelho um selvagem que nada compreende".
Zé Claudio e Maria eram assim, vistos como "selvagens que nada compreendem". Mas, bem cedo se verá que não. Eles eram os profetas. Os que conseguiam ver para além da ganância. Os que conseguiam estabelecer uma relação amorosa com a terra e com as forças da natureza. Eles caíram à bala. E os deputados vende-pátria, quando cairão?
Já os que gritam e clamam por justiça, não precisam esmorecer. Perdeu-se uma batalha. A luta vai continuar. Pois, se sabe: quem luta também faz a lei. Mas a luta não pode ser apenas o grito impotente. Tem de haver ação, organização, informação, rebelião. Não só na proteção do verde, mas na destruição definitiva deste sistema capitalista dependente, que superexplora o trabalho e a terra. É chegada a hora de uma nova forma de organizar a vida. Mas ela só virá se as gentes voltarem a trabalhar em cada vereda deste país, denunciando o que nos mata e anunciando a boa nova.
 
Elaine Tavares é jornalista e membro do Instituto de Estudos Latino-Americanos da UFSC

quinta-feira, 26 de maio de 2011

O lucro sobre a vida: Deputados vaiam anúncio do assassinato de ambientalistas!

Depois ainda dizem por aí que não existe luta de classes! Deputados ruralistas e integrantes da Confederação Nacional da Agricultura vaiaram o anúncio da morte de 2 ambientalistas feita durante a votação nas alterações do Código Florestal. Sem nenhum senso de respeito pela vida humana, os mesmos explodiram em vaias quando o deputado encarregado do anúncio do assassinato subiu a tribuna para informar o plenário do acontecimento!

Vejam abaixo o texto com o relato do fato:

Vaias contra casal foram ‘grotescas’, diz deputado
Matheus Pichonelli
 
25 de maio de 2011 às 18:00h
 
 
No dia em que a Câmara dos Deputados aprovou um projeto que anistia
desmatamentos promovidos pelo país, dois líderes ambientalistas foram
assassinados a tiros no Pará por denunciarem supostas violações à
floresta amazônica cometidas por grupos madeireiros.
 
A morte de José Cláudio Ribeiro da Silva e sua mulher, Maria do
Espírito Santo da Silva, após emboscada em uma área do Projeto de
Assentamento Agroextrativista Praialta-Piranheira, no sudeste do Pará,
foi informada aos deputados, que debatiam o novo Código Florestal, por
volta das 16h da última terça-feira 24, horas depois do crime.
 
Coube ao deputado José Sarney Filho (PV-MA), coordenador da Frente
Parlamentar Ambientalista, ler em plenário um texto em solidariedade
aos militantes:
 
“Ainda não chegou o momento de entramos nesta discussão sobre o Código
Florestal que está sendo feita agora, nesta sessão. Infelizmente, eu
estou assumindo esta tribuna para falar sobre uma tragédia que
aconteceu…”
 
Sarney Filho esperava, conforme disse em entrevista a CartaCapital, um
“silêncio reverencioso” quando citou o nome das vítimas e declarações
feitas por elas contra o desmatamento.
 
O que se ouviu, no entanto, foram vaias dos colegas da bancada
ruralista e dos visitantes que se engalfinhavam na galeria da Câmara
para acompanhar a votação. “Senhor presidente (da Câmara, Marco Maia),
eu estou fazendo um discurso sério. Que história é essa, meus amigos?
Eu não estou ferindo o direito pessoal de nenhum de vocês”, disse
Zequinha Sarney, diante dos protestos feitos pelos “convidados” da
Confederação Nacional da Agricultura (CNA), que, com café e petiscos,
atraía a claque para reforçar os gritos por mudanças no texto.
 
“Eles vaiaram um duplo assassinato. É uma coisa sem sentido, promovida
pelos interessados diretos no projeto, os beneficiados por essa
modificação. Foi algo grotesco”, disse Sarney Filho. “Foi algo
simbólico. Ficou claro que, durante a discussão do projeto, a vida
humana é o que menos importava. Imaginava que fizessem um silêncio
reverencioso, e que se lamentasse, em solidariedade, a morte dessas
pessoas que eram muito admiradas”.
 
O deputado, que no dia seguinte à votação escreveu em seu site que a
Câmara decidiu “espalhar ventos e vai colher tempestades” ao
incentivar desmatamento, disse que jamais havia testemunhado uma
pressão tão forte na Casa como a exercida pela claque ruralista.
“Vamos até analisar se houve alguma irregularidade ou excepcionalidade
nisso. Nunca tinha visto algo parecido em um dia de votação”.
 
Entre outros pontos defendidos pelos ruralistas – e pela claque
patrocinada por eles – a versão final do projeto, aprovado ao fim do
dia, retirou do governo federal a atribuição de regularizar o cultivo
em áreas de proteção permanente e anistiou desmatamentos cometidos até
2008.
 
Algo que o casal assassinado não chegou a ver – e lamentar.
 
 
 
Matheus Pichonelli
 
Fonte: Revista Carta Capital 

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Ainda sobre o assassinato do casal de ambientalistas:



Por racismoambiental, 25/05/2011 06:34
A história se repete! 
Novamente, choramos e revoltamo-nos:
Direitos Humanos e Justiça são para quem neste país?
Hoje, 24 de maio de 2011, foram assassinados nossos companheiros, José Cláudio Ribeiro da Silva e Maria do Espírito Santo da Silva, assentados no Projeto Agroextrativista Praialta-Piranheira, em Nova Ipixuna – PA. Os dois foram emboscados no meio da estrada por pistoleiros, executados com tiros na cabeça, tendo Zé Claúdio a orelha decepada e levada pelos seus assassinos provavelmente como prova do “serviço realizado”.
Camponeses e líderes dos assentados do Projeto Agroextratista, Zé Cláudio e Maria do Espírito Santo (estudante do Curso de Pedagogia do Campo UFPA/FETAGRI/PRONERA) foram o exemplo daquilo que defendiam como projeto coletivo de vida digna e integrada à biodiversidade presente na floresta. Integrantes do Conselho Nacional das Populações Extrativistas (CNS), ONG fundada por Chico Mendes, os dois viviam e produziam de forma sustentável no lote de aproximadamente 20 hectares, onde 80% era de floresta preservada. Com a floresta se relacionavam e sobreviviam do extrativismo de óleos, castanhas e frutos de plantas nativas, como cupuaçu e açaí. No projeto de assentamento vivem aproximadamente 500 famílias.
A denúncia das ameaças de morte de que eram alvo há anos alcançaram o Estado Brasileiro e a sociedade internacional. Elas apontavam seus algozes: madeireiros e carvoeiros, predadores da natureza na Amazônia. Nem por isso, houve proteção de suas vidas e da floresta, razão das lutas de José Cláudio e Maria contra a ação criminosa de exploradores capitalistas na reserva agroextrativista.
Tamanha nossa tristeza! Desmedida nossa revolta! A história se repete! Novamente camponeses que defendem a vida e a construção de uma sociedade mais humana e digna são assassinados covardemente a mando daqueles a quem só importa o lucro: MADEREIROS e FAZENDEIROS QUE DEVASTAM A AMAZÔNIA.
ATÉ QUANDO?
Não bastasse a ameaça ser um martírio a torturar aos poucos mentes e corações revolucionários, ainda temos de presenciar sua concretude brutal?
Não bastasse tanto sangue escorrendo pelas mãos de todos que não se incomodam com a situação que vivemos, ainda precisamos ouvir as autoridades tratando como se o aqui fosse distante?
Não bastasse que nossos homens e mulheres de fibra fossem vistos com restrição, ainda continuaremos abrindo nossas portas para que os corruptos sejam nossos lideres?
Não bastasse tanta dificuldade de fazer acontecer outro projeto de sociedade, ainda assim temos que conviver com a desconfiança de que ele não existe?
Não bastasse que a natureza fosse transformada em recurso, a vida tinha também que ser reduzida a um valor tão ínfimo?
Não bastasse a morte orbitar nosso cotidiano como uma banalidade, ainda temos que conviver com a barbárie?
Mediante a recorrente impunidade nos casos de assassinatos das lideranças camponesas e a não investigação e punição dos crimes praticados pelos grupos econômicos que devastam a Amazônia, RESPONSABILIZAMOS O ESTADO BRASILEIRO – Presidência da República, Ministério do Desenvolvimento Agrário, Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária, Instituto Brasileiro de Meio Ambiente, Polícia Federal, Ministério Público Federal – E COBRAMOS JUSTIÇA!
ESTAMOS EM VÍGILIA!!!
“Aos nossos mortos nenhum minuto de silêncio. Mas toda uma vida de lutas.”
Marabá-PA, 24 de Maio de 2011.
Universidade Federal do Pará/ Coordenação do Campus de Marabá; Curso de Pedagogia do Campo UFPA/FETAGRI/PRONERA; Curso de Licenciatura Plena em Educação do Campo;
Movimento dos Trabalhadores Sem Terra – MST/ Pará;
Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras na Agricultura – FETAGRI/Sudeste do Pará;
Federação dos Trabalhadores e Trabalhadoras da Agricultura Familiar – FETRAF/ Pará;
Movimento dos Atingidos por Barragens – MAB;
Comissão Pastoral da Terra – CPT Marabá;
Via Campesina – Pará;
Fórum Regional de Educação do Campo do Sul e Sudeste do Pará