Mostrando postagens com marcador Tempo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Tempo. Mostrar todas as postagens

quarta-feira, 27 de julho de 2011

O TEMPO CRONOLÓGICO E SEU REFERENCIAL RELATIVÍSTICO – II PARTE

Segue a segunda parte do texto: O TEMPO CRONOLÓGICO E SEU REFERÊNCIAL RELATIVÍSTICO, como informado antes o texto não é de minha autoria, mas o reproduzo aqui com a autorização do autor.
Boa leitura a todos!


CIÊNCIA EM FOCO
Valmir de França*
Dedico este ensaio ao meu Irmão Ubirajara da Cunha
O TEMPO CRONOLÓGICO E SEU
REFERENCIAL RELATIVÍSTICO – II PARTE
Quando acreditamos na pluralidade dos mundos habitados logo nos vem a pergunta: como seria o tempo cronológico nestes lugares ímpares?
 
Em nosso planeta temos dois referenciais de tempo: o movimento de rotação em torno do seu eixo que determina o dia de 24 horas, e o movimento de translação em órbita solar que determina o ano, equivalente a 365,25 dias. Esses referenciais de movimentos astronômicos determinam o tempo cronológico no planeta Terra. Então, como seriam estes referenciais nos planetas Marte, Saturno, Netuno, etc., se lá houvesse seres inteligentes?
 
Nos planetas gigantes e gasosos como o Júpiter, Saturno e Urano, o dia seria em torno de 10 horas! Enquanto é passado 1 ano netuniano (uma órbita completa do Netuno em torno do Sol) foram passados 165 anos aqui na Terra.
VIA-LACTEAb
Concepção artística da galáxia Via Láctea.
Agora vamos passar o nosso referencial para a Via Láctea. Somos agora um observador hipotético localizado em um ponto qualquer do espaço sideral observando o esplendor da nossa galáxia. Para esta referencia a idade do Sol é de aproximadamente 21 anos! Surpreso, caro leitor?
O Sol conduz a sua “família solar” em uma órbita em torno do centro da Via Láctea, deslocando-se a uma velocidade próxima a 990 mil quilômetros por hora. Para completar uma volta completa em torno da nossa galáxia o tempo gasto é equivalente a 220 milhões de anos terrestres.
Desde a formação do sistema Solar estimado em 4,7 bilhões de anos terrestre, o Sol realizou perto de 21 voltas completas.
Como seria o tempo em outros sistemas galáctico em nosso universo? Vamos ousar. Iremos hipoteticamente para outros universos paralelos ao nosso através do “Hiperespaço”.
O Hiperespaço ou Espaço Multidimensional migrou das páginas da ficção-científica para ocupar o espaço que merece na Física Teórica. Há mundos misteriosos escondidos para além dos nossos sentidos humanos
Galaxy_Zoo_fusoes-de-galaxias-720x550
Galáxias em profusão. Imagem obtida pelo HUBBLE/NASA
Os místicos há muito tempo que acreditam na existência desses lugares que, segundo eles estavam cheios de fantasmas e de espíritos. A última coisa que a Ciência desejava era ser associada com tal superstição. Renomados cientistas estudaram e ainda estudam o tema, dentre eles ressaltaremos os seguintes físicos: Albert Einstein (1879 – 1955), Paul Adrien Maurice Dirac (1902 – 1984), Lev Davidivich Landau (1908 – 1968), Hugh Everett (1930 – 1982), e outros. Atualmente, vários cientistas desenvolvem o tema, dentre eles o Prof. David Deutsch, da Universidade de Oxford, Inglaterra, o Dr. Burt Ovrut da Universidade da Pensilvânia e o popular físico Michio Kaku da Universidade da Cidade de New York.
 
Matematicamente demonstraram existir onze ou doze dimensões ou onze ou doze universos paralelos. Cada qual com suas singularidades, suas freqüências, alguns com movimentos progressivos e outros regressivos, uns rápidos e outros lentos (velocidades? Razão espaço e tempo?). Como seria referenciado o tempo cronológico em cada universo paralelo?
 
universos_paralelos_cepe
Concepção artística demonstrando uma interligação entre um Buraco Negro, região onde a matéria “some” em um universo (esq.), e um Buraco Branco onde a “matéria” aparece em outro universo(Dir.). E.Einstein já trabalhava com esta hipótese no início dos anos 1950.
O espaço multidimensional é composto totalmente por energia. Quando sentimos e vemos a matéria ela é apenas energia condensada. Se tudo é energia, esta se manifesta de diversas maneiras, formas em diferentes freqüências. Podemos dizer que cada universo tem sua frequência e características próprias. Teoricamente os espaços interdimensionais seriam absolutos – neles, não existiria a noção de tempo de tempo cronológico. O deslocamento nestes espaços seria como o instante do pensamente. Um veículo navegaria sintonizado na frequência do local, e num instante, como se num pensamento, ele estaria em outro local, no mesmo universo ou no universo paralelo ao seu.
 
Vamos fazer outro exemplo para se entender melhor o que seria um universo paralelo. Podemos representar os universos paralelos pelo modelo onde um transmissor emitiria radiações em diversas freqüências distintas, e cada uma dela representasse um universo paralelo. Seria como fazem as emissoras de rádio e de televisão
Cada uma opera em diferentes faixas de ondas e de frequência. Precisaríamos de um aparelho receptor com o dial sintonizado em determinada emissora para ouvir ou ver algum programa que nos interesse. Giramos o dial e outra emissora diferente da primeira é sintonizada, e assim por diante. No mesmo espaço onde está o nosso aparelho receptor encontram-se entrelaçadas todas as outras emissoras de rádio e de televisão, quer dizer, uma mistura de ondas, desde as ondas curtas, médias e longas quando nos referimos à comprimento de ondas ou, desde baixas freqüências a altíssimas ou ultra-frequências. Se os objetos em nossa volta são sensíveis aos nossos sentidos é porque estamos sintonizados no mesmo universo paralelo. Mas, no mesmo espaço onde nos encontramos poderá existir outros universos que não vemos, não sentimos, porque não estamos sintonizados nele. Poderá a Ciência criar no futuro uma máquina com possibilidade de entrar em sintonia com outros universos paralelos. Se pegarmos carona neste veículo, como seria o tempo cronológico? Repetindo o que dissemos anteriormente, os teóricos afirmam que no Hiperespaço, composto por universos paralelos seria um ambiente absoluto, o tempo não existiria – os nossos deslocamentos seriam estantâneos como os nossos pensamentos.
O tema tem ocupado as mentes brilhantes dos cientistas nestes últimos cem anos. Um dos trabalhos inacabados de Albert Einstein era a Teoria Global ou Teoria do Todo, que resolveria todas as indagações da Ciência. Responderia a todas as questões até então não resolvidas, desde a Teoria do Big Bang até a dos universos paralelos. Outra teoria mais recente, da década dos anos 1980 é a Teoria das Cordas:
“A teoria das cordas mostram que átomos e a matéria em geral vibram em universos diferentes. Não podem ser demarcados num ponto fixo.” 
A Teoria das Cordas, por um momento não conseguiu explicar tudo, inclusive entre os cosmólogos, a Teoria do Big Ban. Mas, em meados da década dos anos 1990, o fisico Edward Witten,apareceu com uma nova teoria a qual se deu o nome de Teoria-M ou para muitos a Teoria das Membranas:
“[...] É uma teoria que unifica as cinco diferentes Teorias das Cordas. Essa teoria diz que tudo, matéria e campo, é formada por membranas, e que o universo flui através de 11 dimensões. Teriamos então 3 dimensões espaciais (altura, largura, comprimento), 1 temporal (tempo) e 7 dimensões recurvadas, sendo a estas atribuídas outras propriedades, como massa e carga elétrica”.
A Teoria “M” reconhece que o Universo não pode ser explicado matematicamente se não for admitido à existência de outros Universos Paralelos ao nosso”.
E agora leitor? Qual o seu conceito de TEMPO após a leitura deste ensaio em duas partes?
“É impossível entender o universo sem a presença de Deus!” Albert Einstein
__________________________________________
Referências
FRANÇA, V. de; GOWDAK, D.; MATTOS, N. S. de. Coleção Ciências: O Universo e o Homem. Livros Didáticos de Ciências de 5ª. a 8ª. Séries do 1º. Grau. São Paulo. Editora FTD. 1994.
 
http://rapidshare.com/files/ 174873018/Universos_Paralelos/BBC de Londres/Documentário
 
*Doutor em Ecologia de Ambientes Aquáticos Continentais/UEM e Universidade Rennes 2, França.
CIÊNCIA EM FOCO é uma Coluna que tem por objetivo a Popularização e Divulgação Científica, no contexto da Educação Científica.
Os temas são abordados em forma de comentários do próprio autor; através de vulgarização de artigos científicos; ensaios, por meio de traduções, de transcrições e demais meios para que o conhecimento científico chegue a todos os leitores de O CAIÇARA “ON LINE”.
Endereço para acessar o CV LATTES:
http://lattes.cnpq.br/3639473647113056
 
**************************************************************************************
Endereço para acessar este CV:
http://lattes.cnpq.br/3639473647113056
"Fora da caridade não há salvação"
ADOTE UMA CRIANÇA
FAÇA O CADASTRO PARA DOAÇÃO DE MEDULA ÓSSEA

segunda-feira, 18 de julho de 2011

O TEMPO CRONOLÓGICO E SEU REFERENCIAL RELATIVÍSTICO – I PARTE

O texto abaixo é da autoria de Valmir De França, pesquisador da Universidade Estadual de Londrina publicado originalmente na coluna CIÊNCIA EM FOCO, esta é a primeira parte do artigo publicado aqui com a autorização do autor, amanhã estarei publicando a segunda parte. Boa leitura a todos!
Valmir de França*
Dedico este ensaio ao meu Irmão Ubirajara da Cunha

Quando olhamos o mostrador do relógio para sabermos a hora, o que lemos é a codificação do modelo de rotação do nosso planeta Terra. O modelo simula a medida de uma volta completa em torno do seu eixo, isto é, um giro de 360o, passando duas vezes pelo mesmo ponto, com a duração relativa de 23h 56min 04s, denominado Dia Sideral. Este ponto poderá ser uma estrela na abóbada celeste ou outros astros como pontos de referência como o Sol. No segundo exemplo a duração do mesmo movimento é de 24h 00min 00s, denominado Dia Solar, portanto 3min 56s mais longo do que o Dia Sideral.
Agora sabemos que é preciso uma referência para a determinação do tempo cronológico. Primeiramente a percepção humana com a prevalência do senso comum, cujo conceito detempo “é indicado por intervalos ou períodos de duração”; – otempo é o registro de uma sequência de eventos, um ocorre após o outro, por intervalos sucessivos. Marcando-se o início e o término dos eventos, teremos assim um período, um tempopercorrido, um tempo gasto.
Cientificamente, “tempo é uma grandeza física diretamente associada ao seqüenciamento mediante ordem de ocorrência de eventos coincidentes – eventos estes sempre observados a partir da origem do referencial para o qual se define o tempo”.
No início do Sec. XX, mais precisamente em 1905, a Teoria da Relatividade de Albert Einstein (1879 – 1955) criou outros fundamentos que revolucionaram a Física Clássica caracterizando a Moderna. Os fenômenos físicos não são generalizados e nem absolutos, dependendo de um referencial ou são relativos a um determinado campo referencial e/ou da localização do observador. Quando estamos no ônibus em movimento, o seu condutor à nossa frente não se desloca em relação a nós, está parado. Mas, em relação a um observador na calçada o motorista está em movimento, isto é, ocorre um deslocamento do motorista em relação ao observador parado na calçada.
Temos também o tempo relativístico – que “explicita a dependência da coincidência de eventos com o referencial a partir do qual se observam os mesmos”, como no exemplo hipotético acima sobre as características dos eventos físicos que dependem de referenciais ou, são relativos a pontos ou planos referenciais. Assim, o conceito de tempo cronológico perde a condição de grandeza absoluta e universal, passando a ser uma grandeza estritamente local, uma grandeza dependente e atrelada à origem de um referencial em específico.
Perguntaríamos: o tempo cronológico é igual em todo Universo? Claro que não, conforme os fundamentos introdutórios deste ensaio, com abordagem aproximativa, no contexto da Teoria da Relatividade.
Como seria o tempo em outros planetas, em outros mundos?
Durante a Segunda Onda Toffleriana (A Terceira Onda, Alvin Toffler) o homem deixou de coletar seu alimento e aprendeu a plantar, iniciar a prática da agricultura. Aprendeu a enterrar a semente da planta alimentícia e fazer germinar outra planta idêntica para sustentar a sua família, a sua tribo. Mas surgiu um grande desafio: seria necessário o uso de um sistema que apresentasse alguns eventos cíclicos na natureza para embasar o planejamento da rudimentar agricultura – uma espécie de calendário. Saberia desta forma a época da semeadura e da colheita, como também as épocas das manifestações culturais, religiosas, administrativas, etc. A resposta veio através das observações dos movimentos aparentes dos astros, como do Sol, da Lua e das estrelas. Quando o Sol, ou alguma estrela ou grupos de estrelas aparentemente próximas (constelação) apareciam em determinado ponto da linha do horizonte, correspondia a certa Estação do Ano como um fenômeno sazonal, ou o solstício e o equinócio. Aprendeu a usar estas informações para saber as épocas de plantio e da colheita e dos mais variados eventos culturais. Podemos afirmar que foi o nascimento da futura ciência que hoje conhecemos como Astronomia. Nasceu para a necessidade da sobrevivência do ser humano, podemos acrescentar que também para a preservação de sua cultura.
A partir deste marco histórico da Humanidade o homem passou a observar e registrar os movimentos dos astros e, progressivamente construir e aperfeiçoar os calendários. Vamos encontrar esta cultura em todos os povos, em todos os continentes habitados ao longo da história das civilizações em nosso planeta. Os nossos índios já utilizavam o calendário baseado na Astronomia. Estudos realizados pelo saudoso astrônomo Marcomede Rangel Nunes (1951 – 2010) sobre a Astronomia dos índios Desaña (Tukano Oriental) da região do Alto Rio Negro, Amazônia brasileira, exemplificam esta cultura pré-colombiana entre as nações autóctones do nosso Pindorama, conforme o quadro a seguir:
Quadro 1. Relação das constelações dos índios Desânas, identificadas pelo astrônomo Marcomede Rangel Nunes do Observatório Nacional, com as constelações reconhecidas pela União Astronômica Internacional. Os indicadores e as atividades a elas relacionadas encontram se na última coluna.
CONSTELAÇÃO
(Nome em Desâna)
SIGNIFICADO
IDENTIFICAÇÃO
ATIVIDADE
Añá siñoliru
Iluminação da Jararaca
Cruzeiro do Sul
Fortes chuvas.
Añá dihpuro
Cabeça da jararaca

Limpeza do solo.
Añá dëhpë puiró
Corpo da jararaca

Derrubada das árvores.
Añá diubá puiró
Ovos de jararaca
Estrelas Alfa e Beta do Centauro
Coleta de cogumelos.
Añá poleró beró
Rabo redondo de jararaca
Cauda do Escorpião
Pesca: ocorre a primeira piracema do aracu.
Pamo ngoá dëhka
Fêmur de tatu

Chuvas.
Pamo
Tatu

Segunda piracema do aracu.
Ñahsin kamë
Camarão

Terceira piracema do aracu; coleta de maniuaras1, saúvas e formigas da noite.
Yé disiká poaló
Barba do queixo da onça
Pedaço da Ursa Maior (?)
Fim do ciclo das pira-cemas e da safra de umari 2
Yé dëhpë puiró
Corpo da onça

Caça às rãs
Yé poleró beró
Rabo redondo da onça

Fim da caça às rãs e da coleta de formigas; coleta de cupins.
1 Maniuaras: um tipo de formiga
2 Umari: fruta típica da região.

Podemos reafirmar que ainda hoje a cultura astronômica está presente nos mais variados calendários em quase todas as regiões do nosso planeta. Podemos exemplificar os calendários, espanhóis, ingleses, nórdico-europeus, franceses, etc., onde cada dia da semana corresponde a um determinado astro.
Quadro 2. Origens dos nomes da semana e comparação entre diversos calendários em diferentes países, com base na Astronomia.
Português Moderno
Português Arcaico
Deus romano
deus saxão
Espanhol
Italiano
Francês
Domingo
Sol
Sol
Domingo
Domenica
Dimanche
Lues (pronuncia-se lũes)
Lua
Lua
Lunes
Lunedì
Lundi
Martes
Marte
Tyr
Martes
Martedì
Mardi
Mércores
Mercúrio
Odin
Miércoles
Mercoledì
Mercredi
Joves
Júpiter
Thor
Jueves
Giovedì
Jeudi
Vernes
Vênus
Freya
Viernes
Venerdì
Vendredi
Sábado
Saturno
Saturno
Sábado
Sabato
Samedi

Se de um lado as observações e respectivos registros sistemáticos fundamentaram a atual Ciência Astronomia, do outro lado, o senso comum utilizado para entender o fenômeno encontrou na religião uma âncora. O conjunto de fenômenos que indicavam as fases fenológicas das espécies agrícolas, as datas das festividades aos deuses (solstícios, equinócios, etc.) alimentaram uma cultura mística. Criou-se deste modo a religião politeísta denominada Astrologia, onde cada astro é um deus com finalidades específicas (ver no quadro acima os deuses romanos e os deuses saxões).  Esta espécie de sincretismo religioso está no senso comum por não saberem naquela época o fenômeno real da natureza relacionado às colheitas, às doenças, etc. Esta conotação mística, religiosa, para justificar os fenômenos naturais nos faz lembrar de uma frase do escritor alemão Thomas Mann (1875 – 1955): “O bem do homem pensante é explorar o explorável e serenamente venerar o inexplorável” (Apenas para informação, Thomas Mann era filho  de Johann Heinrich  Mann e da brasileira Júlia da Silva Bruhns).
Na época da agricultura primitiva quando o cultivo de certa planta estava relacionado a certos astros que embora servissem como calendários, também eram aclamados para que “dessem” boas colheitas, chuvas nos períodos de estiagens severas, vitórias nas guerras, cura para certa enfermidade, etc. Assim, os astros eram concebidos como verdadeiros deuses. Para os nossos indígenas a Lua era considerada a deusa Jaci, Caramuru – o deus dos trovões, etc.

A necessidade do uso e registro do tempo foi mais por motivo social e administrativo. A história nos diz que os primeiros aparelhos inventados pelo homem para marcar o tempo ocorreu aproximadamente 1.500 a.C no Egito – foi o Relógio-de-Sol ou Quadrante Solar (Figura ao lado) O Relógio-de-Sol determina a “hora solar local”. A montagem e uso dos quadrantes solares contribuíram para traçar as linhas básicas da geometria cartográfica terrestre, que são os meridianos, os paralelos, a determinação correta das direções cardeais pelo Sol.  
O que é horário solar local? Por exemplo, quando é “meio dia solar local” em Paranaguá que corresponde ao Meridiano 48o 31’ 52” Oeste,   ainda não é o mesmo horário em Foz do Iguaçu cujo Meridiano é 54o 35’05”Oeste. Uma vez que o planeta Terra gira no sentido Oeste para Leste, o Sol passa primeiro pelo Meridiano de Paranaguá e, 24 minutos depois, passará pelo Meridiano de Foz do Iguaçu que está a 6o de Longitude a Oeste do litoral paranaense. Mas, atualmente as duas cidades paranaenses estão no mesmo Fuso Horário onde a hora Legal é a mesma – isto é, legalmente o horário de meio dia em Paranaguá é o mesmo em Foz do Iguaçu, que por sua vez é o mesmo de Brasília, Distrito Federal.
Antes do advento dos fusos horários, cada cidade tinha o seu horário local. Podemos ver nos monumentos, igrejas, castelos, etc., os relógios- de-sol. Os viajantes acertavam seus relógios em cada cidade que chegavam.  O Sistema Internacional de Fusos Horários tal como hoje conhecemos foi concebido pelo senador canadense Sanford Fleming, em 1878, quando teve algumas aplicações regionais no Canadá e nos Estados Unidos. Para sanar o caos mundial que exigia uma padronização na Hora, foi realizada uma Conferência Mundial no ano de 1884 em Washington D.C. reunindo 25 representantes dos países mais influentes, que aprovaram o Sistema de Fusos testado nos Estados Unidos e Canadá. Foi determinado o Meridiano de Greenwich como “Meridiano Inicial”, e o meridiano antípoda ou oposto (a 180o a Leste ou a Oeste de Greenwich) localizado no Oceano Pacífico foi denominado “Linha Internacional da Hora”. A partir daí uma série de setores de atividades, como navegações, marítima, aérea, espacial; observações astronômicas; manobras militares; as telecomunicações, etc., utilizam o horário GMT (Greenwich Mean Time) – Hora Média de Greenwich, ou, Tempo Coordenado Universal (UTC – Universal Coordinated Time).  
Continua PARTE II na edição da próxima Coluna Ciência em Foco: Como seria o tempo em outros mundos e no Hiperespaço?
__________________________________________
Referências
FRANÇA, V. de; GOWDAK, D.; MATTOS, N. S. de. Coleção Ciências: O Universo e o Homem. Livros Didáticos de Ciências de 5ª. a 8ª. Séries do 1º. Grau. São Paulo. Editora FTD. 1994.

OLIVEIRA, P. Di C. Astronomia e os índios Desâna. In: VARELA, I. G. & OLIVEIRA, P. D.C.F. de. Histórias da Astronomia. No.  03. 2003.


*Doutor em Ecologia de Ambientes Aquáticos Continentais/UEM e Universidade Rennes 2, França.
CIÊNCIA EM FOCO é uma Coluna que tem por objetivo a Popularização e Divulgação Científica, no contexto da Educação Científica.

*defranca@uel.br; defranca_v@hotmail.com
Endereço para acessar o CV LATTES: 
http://lattes.cnpq.br/3639473647113056
 **************************************************************************************
Endereço para acessar este CV: 
http://lattes.cnpq.br/3639473647113056
"Fora da caridade não há salvação"
ADOTE UMA CRIANÇA
FAÇA O CADASTRO PARA DOAÇÃO DE MEDULA ÓSSEA

sexta-feira, 25 de março de 2011

Expressão da minha indignação!

Como expressão da minha indignação pela decisão do STF com relação a lei da "Ficha Limpa", deixo aqui as Palavras do Mestre Carlos Drumond de Andrade.
O poema é longo, mas vale a pena postar o mesmo por completo, e a leitura nos trás reflexões a serem feitas.

Com vocês, NOSSO TEMPO (Carlos Drumond de Andrade)

Nosso Tempo
I
Esse é tempo de partido,
tempo de homens partidos.
Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha-se em pó na rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve-se
na pedra.
Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor de meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimos, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar-me
a cidade dos homens completos.
Calo-me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!
Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam o sentido, apenas querem explodir.
II
Esse é tempo de divisas,
tempo de gente cortada.
De mãos viajando sem braços,
obscenos gestos avulsos.
Mudou-se a rua da infância.
E o vestido vermelho
vermelho
cobre a nudez do amor,
ao relento, no vale.
Símbolos obscuros se multiplicam.
Guerra, verdade, flores?
Dos laboratórios platônicos mobilizados
vem um sopro que cresta as faces
e dissipa, na praia, as palavras.
A escuridão estende-se mas não elimina
o sucedâneo da estrela nas mãos.
Certas partes de nós como brilham! São unhas,
anéis, pérolas, cigarros, lanternas,
são partes mais íntimas,
e pulsação, o ofego,
e o ar da noite é o estritamente necessário
para continuar, e continuamos.
III
E continuamos. É tempo de muletas.
Tempo de mortos faladores
e velhas paralíticas, nostálgicas de bailado,
mas ainda é tempo de viver e contar.
Certas histórias não se perderam.
Conheço bem esta casa,
pela direita entra-se, pela esquerda sobe-se,
a sala grande conduz a quartos terríveis,
como o do enterro que não foi feito, do corpo esquecido na mesa,
conduz à copa de frutas ácidas,
ao claro jardim central, à água
que goteja e segreda
o incesto, a bênção, a partida,
conduz às celas fechadas, que contêm:
papéis?
crimes?
moedas?
Ó conta, velha preta, ó jornalista, poeta, pequeno historiados urbano,
ó surdo-mudo, depositário de meus desfalecimentos, abre-te e conta,
moça presa na memória, velho aleijado, baratas dos arquivos, portas rangentes, solidão e asco,
pessoas e coisas enigmáticas, contai;
capa de poeira dos pianos desmantelados, contai;
velhos selos do imperador, aparelhos de porcelana partidos, contai;
ossos na rua, fragmentos de jornal, colchetes no chão da
costureira, luto no braço, pombas, cães errantes, animais caçados, contai.
Tudo tão difícil depois que vos calastes...
E muitos de vós nunca se abriram.
IV
É tempo de meio silêncio,
de boca gelada e murmúrio,
palavra indireta, aviso
na esquina. Tempo de cinco sentidos
num só. O espião janta conosco.
É tempo de cortinas pardas,
de céu neutro, política
na maçã, no santo, no gozo,
amor e desamor, cólera
branda, gim com água tônica,
olhos pintados,
dentes de vidro,
grotesca língua torcida.
A isso chamamos: balanço.
No beco,
apenas um muro,
sobre ele a polícia.
No céu da propaganda
aves anunciam
a glória.
No quarto,
irrisão e três colarinhos sujos.
V
Escuta a hora formidável do almoço
na cidade. Os escritórios, num passe, esvaziam-se.
As bocas sugam um rio de carne, legumes e tortas vitaminosas.
Salta depressa do mar a bandeja de peixes argênteos!
Os subterrâneos da fome choram caldo de sopa,
olhos líquidos de cão através do vidro devoram teu osso.
Come, braço mecânico, alimenta-te, mão de papel, é tempo de comida,
mais tarde será o de amor.
Lentamente os escritórios se recuperam, e os negócios, forma indecisa, evoluem.
O esplêndido negócio insinua-se no tráfego.
Multidões que o cruzam não vêem. É sem cor e sem cheiro.
Está dissimulado no bonde, por trás da brisa do sul,
vem na areia, no telefone, na batalha de aviões,
toma conta de tua alma e dela extrai uma porcentagem.
Escuta a hora espandongada da volta.
Homem depois de homem, mulher, criança, homem,
roupa, cigarro, chapéu, roupa, roupa, roupa,
homem, homem, mulher, homem, mulher, roupa, homem,
imaginam esperar qualquer coisa,
e se quedam mudos, escoam-se passo a passo, sentam-se,
últimos servos do negócio, imaginam voltar para casa,
já noite, entre muros apagados, numa suposta cidade, imaginam.
Escuta a pequena hora noturna de compensação, leituras, apelo ao cassino, passeio na praia,
o corpo ao lado do corpo, afinal distendido,
com as calças despido o incômodo pensamento de escravo,
escuta o corpo ranger, enlaçar, refluir,
errar em objetos remotos e, sob eles soterrados sem dor,
confiar-se ao que bem me importa
do sono.
Escuta o horrível emprego do dia
em todos os países de fala humana,
a falsificação das palavras pingando nos jornais,
o mundo irreal dos cartórios onde a propriedade é um bolo com flores,
os bancos triturando suavemente o pescoço do açúcar,
a constelação das formigas e usurários,
a má poesia, o mau romance,
os frágeis que se entregam à proteção do basilisco,
o homem feio, de mortal feiúra,
passeando de bote
num sinistro crepúsculo de sábado.
VI
Nos porões da família
orquídeas e opções
de compra e desquite.
A gravidez elétrica
já não traz delíquios.
Crianças alérgicas
trocam-se; reformam-se.
Há uma implacável
guerra às baratas.
Contam-se histórias
por correspondência.
A mesa reúne
um copo, uma faca,
e a cama devora
tua solidão.
Salva-se a honra
e a herança do gado.
VII
Ou não se salva, e é o mesmo. Há soluções, há bálsamos
para cada hora e dor. Há fortes bálsamos,
dores de classe, de sangrenta fúria
e plácido rosto. E há mínimos
bálsamos, recalcadas dores ignóbeis,
lesões que nenhum governo autoriza,
não obstante doem,
melancolias insubornáveis,
ira, reprovação, desgosto
desse chapéu velho, da rua lodosa, do Estado.
Há o pranto no teatro,
no palco ? no público ? nas poltronas ?
há sobretudo o pranto no teatro,
já tarde, já confuso,
ele embacia as luzes, se engolfa no linóleo,
vai minar nos armazéns, nos becos coloniais onde passeiam ratos noturnos,
vai molhar, na roça madura, o milho ondulante,
e secar ao sol, em poça amarga.
E dentro do pranto minha face trocista,
meu olho que ri e despreza,
minha repugnância total por vosso lirismo deteriorado,
que polui a essência mesma dos diamantes.
VIII
O poeta
declina de toda responsabilidade
na marcha do mundo capitalista
e com suas palavras, intuições, símbolos e outras armas
prometa ajudar
a destruí-lo
como uma pedreira, uma floresta
um verme.